
O Brasil acaba de alcançar um marco histórico. Somente em 2025, foram realizados mais de 31 mil transplantes de órgãos e tecidos, o maior número já registrado no país. O resultado demonstra a capacidade técnica do Sistema Nacional de Transplantes, considerado um dos maiores programas públicos do mundo, e mostra que milhares de pessoas tiveram a oportunidade de recomeçar suas vidas. Por trás de cada procedimento, porém, existe uma decisão que continua sendo o maior desafio para a medicina, que é a autorização familiar para a doação de órgãos.
Como nefrologista, acompanho diariamente pacientes que dependem de um transplante renal para recuperar qualidade de vida. Muitos enfrentam anos de tratamento, consultas, exames e sessões de diálise enquanto aguardam uma oportunidade. Embora os avanços da medicina tenham ampliado as possibilidades terapêuticas, nenhum equipamento é capaz de substituir completamente o impacto que um transplante bem-sucedido pode proporcionar. Para essas pessoas, a chegada de um órgão compatível representa é a possibilidade de voltar a trabalhar, viajar, planejar o futuro e retomar atividades simples que a doença havia limitado.
Ao mesmo tempo em que os números de transplantes crescem, o país ainda convive com um obstáculo importante. Dados do Ministério da Saúde mostram que cerca de 45% das famílias brasileiras ainda recusam a doação de órgãos quando são consultadas após a confirmação da morte encefálica de um ente querido. Em muitos casos, a negativa não acontece por falta de solidariedade, mas porque o assunto nunca foi discutido dentro de casa. Quando a família desconhece o desejo da pessoa falecida, a decisão costuma ser ainda mais difícil em um momento marcado pela dor e pela surpresa.
Por isso, uma das ações mais importantes para ampliar o número de transplantes não acontece dentro dos hospitais. Ela acontece na mesa do almoço, durante uma conversa entre pais, filhos, irmãos e amigos. Informar aos familiares o desejo de ser doador é, hoje, o passo mais importante para quem deseja ajudar outras pessoas após a morte. Diferentemente do que muitos imaginam, não existe um documento que substitua a autorização familiar no Brasil. A vontade precisa ser conhecida por aqueles que estarão presentes no momento da decisão.
Também é importante lembrar que um único doador pode beneficiar diversas pessoas. Rins, fígado, coração, pulmões, pâncreas, córneas e outros tecidos podem transformar a realidade de pacientes que aguardam na fila por uma nova oportunidade de viver. Em um país onde dezenas de milhares de pessoas ainda esperam por um transplante, cada autorização familiar tem potencial para mudar muitas histórias ao mesmo tempo.
A medicina continuará evoluindo, novas tecnologias surgirão e os resultados dos transplantes serão cada vez melhores. Mas existe algo que nenhuma inovação consegue substituir: a decisão humana de ajudar o próximo. Falar sobre doação de órgãos pode parecer um tema difícil, mas é justamente essa conversa que tem o poder de transformar uma perda em esperança para muitas famílias. Em um momento em que o Brasil celebra recordes e avanços na área dos transplantes, talvez a pergunta mais importante seja simples: sua família sabe qual é a sua vontade?

