O capixaba amanheceu nesta terça-feira, 27 de outubro, com uma pergunta mais importante do que a de domingo: eleito, e agora? Lorenzo Pazolini (Republicanos) venceu a disputa ao governo do Espírito Santo vencendo em 40 municípios, contra 38 de Ricardo Ferraço (MDB), mas números eleitorais não se traduzem automaticamente em governabilidade. Levantamento sobre a composição da Assembleia Legislativa já indica que o governador eleito vai precisar negociar base, cadeira por cadeira, antes de aprovar qualquer projeto estruturante.
Essa equação de poder chega num momento em que o estado tem motivos concretos para sonhar grande. O Corecon-ES projeta a chegada de mais de 100 empresas de logística e R$ 5 bilhões em investimentos ao Espírito Santo na próxima década. É um número que, se confirmado, reposiciona o estado no mapa produtivo do país — mas que depende diretamente da capacidade do novo governo de criar ambiente regulatório estável e articular apoio político para sustentar políticas de longo prazo. Promessa de investimento sem estabilidade institucional vira apenas intenção de investimento.
Enquanto isso, a Grande Vitória vive uma contradição que merece atenção: o Índice FipeZAP revela que a capital capixaba tem o metro quadrado residencial mais caro do Brasil, batendo R$ 15.905 em setembro. Vila Velha, cidade vizinha, lidera a valorização no mesmo período. O dado expõe uma cidade que atrai investimento e badalação imobiliária, mas que também expulsa parte da população para fora do centro metropolitano, pressionando mobilidade, serviços e o próprio custo de vida de quem trabalha ali.
É nesse contraste — capital cara e disputada, interior tentando se afirmar — que vale observar o que acontece fora da Grande Vitória. Em Cachoeiro de Itapemirim, o caminhão educacional da EDP leva ciência para 400 alunos de escolas municipais nesta semana, e nesta quarta o Procon da cidade promove um evento sobre superendividamento, tema que fala diretamente ao bolso de famílias sufocadas pelo crédito fácil. São iniciativas pequenas, mas que mostram um interior tentando construir capital humano e educação financeira sem esperar decisão de Vitória.
O mesmo movimento aparece em Cariacica, onde Laboratórios Maker mantidos em parceria com a Ufes desde maio de 2025 seguem formando crianças em robótica, astronomia e impressão 3D — um investimento silencioso que não sai manchete política, mas que é exatamente o tipo de política pública estruturante que sobrevive a qualquer governo, independentemente de quem estiver no Palácio Anchieta.
Do lado ambiental, a Marca Ambiental ampliou sua frota com dez novos caminhões a gás natural e biometano, chegando a 12 veículos de baixa emissão operando na coleta de resíduos da Grande Vitória. É um sinal de que o setor privado local já está avançando em sustentabilidade prática, independentemente de qualquer discurso de campanha — e que o próximo governo vai encontrar, pelo menos nesse ponto, uma base empresarial já alinhada a pautas ambientais.
A cultura também não para: o Theatro Carlos Gomes recebe nesta terça o espetáculo gratuito 'Vende-se Sonhos', inspirado nos Novos Baianos, e Guarapari antecipa um show gratuito de jazz e choro para sexta-feira, trocando ingresso por alimento ao Mesa Brasil. São eventos que lembram que a vida capixaba segue seu ritmo independentemente da política — mas que também dependem de incentivo público para continuar acontecendo com regularidade.
O que observar daqui para frente é simples de enunciar e difícil de executar: Pazolini precisa transformar votos em aliados na Ales antes de transformar promessas em obra. Os R$ 5 bilhões de logística, o metro quadrado mais caro do país e os projetos educacionais do interior são, juntos, o retrato de um estado com potencial real — mas que só vai entregar esse potencial se a articulação política acompanhar a ambição econômica.


