Hoje, quinta-feira, 27 de agosto de 2026, dá para enxergar dois Espíritos Santos rodando em velocidades diferentes. De um lado, o interior negocia crédito bilionário, exporta rocha ornamental para o mundo e já testa o terreno eleitoral de 2026. De outro, a Grande Vitória resolve questões mais miúdas — vaga de ambulante, regra de condomínio, aula de dança gratuita. São agendas distintas, mas atravessadas pelo mesmo fio: dinheiro escasso e um clima que não respeita fronteira de prefeitura.
Em Cachoeiro de Itapemirim, a Cachoeiro Stone Fair 2026 segue até esta quinta com a FINDES apresentando um estande de inteligência artificial e segurança para o setor de rochas ornamentais, um dos pilares da economia capixaba. Não é só vitrine tecnológica: a abertura do evento, na terça-feira (25), já recebeu o deputado estadual e candidato a federal Dr. Bruno Resende, sinal de que a articulação econômica do interior caminha lado a lado com a pré-campanha de outubro.
Essa mistura fica ainda mais clara em Linhares. Nesta quinta, às 18h30, o presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Santos, lança sua candidatura a deputado federal na cidade — não em Vitória. O interior, historicamente cobiçado por votos, volta a ser o primeiro palco de quem disputa uma vaga em Brasília, meses antes do período oficial de campanha.
No campo fiscal, Colatina recebeu na terça-feira aval do Ministério da Fazenda para um empréstimo de R$ 50 milhões garantido pela União. É a prova de que o crédito municipal ainda circula, mesmo num cenário nacional em que empresas brasileiras — e capixabas dependentes de capital de giro — precisaram renegociar R$ 180 bilhões em dívidas por causa dos juros altos. O contraste é direto: prefeitura toma empréstimo enquanto empresa reestrutura dívida para sobreviver ao mesmo custo do dinheiro.
O clima também entra na conta. O 6º Boletim de Monitoramento do El Niño, divulgado terça-feira pelo CICC, confirma o fenômeno plenamente estabelecido, reduzindo a vazão de rios e pressionando reservatórios em regiões de mata do Espírito Santo. É um alerta que afeta diretamente o interior agrícola e a segurança hídrica de cidades que dependem de manancial local, num momento em que a economia já está sob pressão de outro lado.
Enquanto isso, o bolso do consumidor capixaba mostra um respiro: dados da Sefaz indicam que o fim da chamada taxa das blusinhas, em maio, disparou as compras internacionais no estado, com salto nas Declarações de Importação de Remessas. É a contradição do momento — juro alto trava empresa, mas facilita a compra lá fora, redesenhando o consumo sem que a economia real sinta o mesmo alívio.
Na Grande Vitória, a pauta é outra: 61 vagas para ambulantes e food trucks foram abertas para os 475 anos da capital, entre 5 e 7 de setembro, na Praça do Papa; Serra, Vila Velha e Cariacica oferecem aulas gratuitas de dança; e o Detran-ES contabiliza 6.927 carros elétricos e híbridos emplacados até 21 de julho, número que já obriga condomínios a criar regras novas para recarga nas garagens. Some-se a isso a inauguração, no domingo (23), de uma megaigreja de quase 30 mil m² ao lado do Aeroporto de Vitória — sinais de uma capital que cresce em infraestrutura urbana e fé, mas discute problemas de escala menor que os do interior.
O que fica claro nesta quinta-feira é que o Espírito Santo caminha em dois trilhos que, cedo ou tarde, se cruzam. O interior dita o ritmo econômico e eleitoral; a capital administra o cotidiano de uma cidade em expansão. E por cima dos dois, El Niño e juros altos seguem cobrando a fatura — um pelo lado da água, outro pelo lado do crédito. Vale acompanhar se Colatina inspira outras prefeituras a buscar crédito garantido pela União, e se a corrida eleitoral que já começou em Linhares vai se espalhar por outras cidades do interior nas próximas semanas.



