O Espírito Santo vive, nesta quinta-feira, 24 de setembro, um contraste que resume bem o momento do Estado: de um lado, contratos bilionários de exportação verde e recordes de arrecadação; de outro, viadutos que ainda não saíram do papel, acidentes de trânsito e um concurso público que promete aliviar, mas não resolver, a carência de policiamento. É esse descompasso entre o ES que negocia com a Alemanha e o ES que sofre com buraco na pista que marca o noticiário das últimas 24 horas.
O símbolo mais evidente do primeiro ES é a notícia vinda de Aracruz: a empresa germano-brasileira Atlanteo vai construir a usina Alba, a primeira do país voltada à produção de metanol verde para exportação à Europa. As obras começam em 2027, e o projeto reforça algo que já é dado: o Espírito Santo se consolida como porta de saída para a transição energética europeia, repetindo em escala verde o papel histórico do Porto de Tubarão com o minério. É dinheiro pesado, tecnologia de ponta e um horizonte de exportação que dialoga com outro número expressivo do dia — o atacado capixaba responde por quase 30% de todo o ICMS arrecadado no Estado, superando indústria e varejo, com mais de quatro mil empresas na ativa.
Esses dois dados juntos contam uma história: o Espírito Santo cresce como plataforma logística e industrial, um papel que já exerce há décadas e que se atualiza agora com a pauta verde. Mas esse crescimento macro não se traduz automaticamente em qualidade de vida na ponta. Prova disso é a obra dos viadutos na BR-101, em Cariacica: R$ 30,5 milhões investidos, mas com conclusão prevista só para agosto de 2027. Ou seja, o mesmo tipo de prazo longo que caracteriza grandes projetos industriais também trava intervenções urbanas urgentes, num município que sofre cronicamente com gargalos de mobilidade.
No campo da segurança, o dia também expõe tensões. Um carro colidiu com um ônibus do Transcol na Serra, deixando dois feridos — mais um episódio da rotina de acidentes que marca o transporte coletivo na Grande Vitória. Em paralelo, quase 25 mil candidatos farão neste domingo as provas do concurso da Polícia Militar do Espírito Santo, que oferece 1.008 vagas. É um número expressivo, mas que só começará a produzir efeito prático nas ruas depois de meses de formação — o que significa que a sensação de insegurança cotidiana não muda da noite para o dia, por mais robusto que seja o edital.
Enquanto isso, a Dez Milhas Garoto, no domingo, vai interditar vias entre Vitória e Vila Velha, um lembrete de que a Grande Vitória convive simultaneamente com obras, acidentes e eventos de grande porte disputando o mesmo espaço viário limitado. É a rotina de uma região metropolitana que cresce em eventos e em tráfego, mas não na mesma velocidade em infraestrutura.
Por outro lado, o Espírito Santo também mostrou nesta quinta-feira sua força simbólica e cultural, que muitas vezes escapa das planilhas de ICMS. A trajetória de Tia Laura, 95 anos, primeira presidente da associação de moradores da Ilha das Caieiras, é um retrato da resistência comunitária que sustenta bairros populares de Vitória há décadas. O Convento da Penha, erguido a partir de 1558 em Vila Velha, a cidade mais antiga do Estado, segue como marco de identidade capixaba a 154 metros de altura sobre o mar. E a cantora Fertarié, com seu EP 'SPRSNL1' gravado em Vila Velha, mostra que a produção cultural local também exporta — não minério nem metanol, mas som e identidade.
Some-se a isso o movimento institucional da OAB-ES, que propôs um termo de compromisso com a democracia a candidatos ao Governo e ao Senado nas eleições de 2026, e fica claro que o Estado também discute, silenciosamente, as regras do jogo político que vai definir os próximos anos. É uma pauta que não faz manchete espalhafatosa, mas que tende a pautar debates daqui a poucos meses.
No fim, o que este 24 de setembro escancara é que o Espírito Santo caminha em duas velocidades: uma internacional, ligada a grandes capitais e contratos de exportação verde, e outra local, feita de viadutos atrasados, acidentes de trânsito e concursos que demoram para virar efetivo nas ruas. O desafio dos próximos meses será perceber se o dinheiro do metanol verde e do atacado consegue, de fato, descer para a base — ou se continuará circulando só nas alturas dos grandes contratos.



