Há um Espírito Santo que planeja o futuro com wi-fi e mobilidade sustentável, e há outro que descobre, num levantamento nacional, que seu presente econômico depende de decisões tomadas em Washington. As duas faces apareceram lado a lado nesta quinta-feira, e juntas contam mais sobre o estado do que qualquer notícia isolada conseguiria.
Em Vila Velha, o Parque Nari é apresentado como o primeiro bairro inteligente do Espírito Santo — uma promessa de tecnologia, sustentabilidade e mobilidade integradas num só projeto urbano. É um símbolo de ambição: o município que historicamente conviveu à sombra de Vitória tenta se posicionar como vitrine de inovação na Grande Vitória.
Mas a mesma semana escancarou a fragilidade estrutural que esse tipo de projeto tenta compensar. Um levantamento sobre o novo tarifaço americano colocou Serra em 4º lugar e Cachoeiro de Itapemirim em 8º lugar entre as cidades brasileiras com maior volume de exportações potencialmente afetadas. São dois pilares da economia capixaba — um ligado à siderurgia e à logística portuária, outro ao mármore, granito e agroindústria do Sul do estado — expostos a uma política comercial decidida fora do país.
O contraste não é só geográfico, é temporal. Enquanto Vila Velha discute o bairro do futuro, Serra e Cachoeiro lidam com uma ameaça imediata a empregos e contratos que sustentam famílias hoje. Nenhum bairro inteligente, por mais bem planejado que seja, blinda uma economia regional de decisões tarifárias tomadas a milhares de quilômetros dali.
No campo da segurança, a prisão de uma técnica de enfermagem suspeita de desviar fentanil de hospitais capixabas para revenda ao tráfico acende um alerta que ultrapassa o caso isolado. O opioide sintético, protagonista de uma crise sanitária nos Estados Unidos, aparece agora misturado a outras substâncias no mercado local — um sinal de que o Espírito Santo não está imune a rotas e práticas que até pouco tempo pareciam distantes.
Por outro lado, a vida segue e a cultura resiste. A Orquestra Sinfônica do Espírito Santo fecha nesta quinta uma temporada de apresentações no Teatro Sesc Glória, em Vitória, com um programa que passeia por Gershwin e Rachmaninoff. No Sul do estado, a Festa de Nossa Senhora dos Anjos da Porciúncula movimenta o Convento da Penha para o fim de semana, e a Lua do Veado ainda ecoa como lembrança de uma noite de observação coletiva no Parque da Fonte Grande.
O esporte também entrega boas notícias que merecem contexto: o time sub-17 de Colatina venceu o Brasileiro de Futebol 7 em Maceió, e o Vitória Rugby se prepara para estrear como mandante em Cariacica no dia 15 de agosto — sinais de que o interior e os esportes menos badalados seguem produzindo resultado, mesmo sem os holofotes que recaem sobre a economia e a segurança.
O que fica desse dia é uma pergunta prática: o Espírito Santo consegue equilibrar sua vocação exportadora — hoje vulnerável a tarifaços — com projetos de inovação urbana que, por ora, atendem a poucos bairros? A resposta não virá amanhã, mas os próximos meses, com a definição concreta das tarifas americanas e o avanço (ou não) do Parque Nari, vão indicar se o estado caminha para reduzir essa distância ou para aprofundá-la.


