A publicidade das casas de apostas, conhecidas como bets, se espalhou nos últimos anos por camisas de times, naming rights de estádios, reality shows e redes sociais. Milhões de brasileiros foram atraídos pela promessa de ganhos fáceis, mas muitos viram o endividamento crescer em vez do lucro.
Desde o fim de setembro, uma medida provisória assinada pelo governo federal acabou com a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas no país. Antes mesmo da proibição, mais de 25 milhões de brasileiros estavam cadastrados em plataformas de apostas, segundo dados citados na reportagem.
Um apostador profissional de 30 anos, morador de Jardim Camburi, em Vitória, conta que já havia voltado ao mercado financeiro antes da proibição, por prever a medida. Para ele, a proibição não muda a essência da atividade, já que o hábito de apostar sempre existiu, antes mesmo das bets, em caça-níqueis e cassinos.
O estudante universitário I., de 21 anos, mantinha uma rotina de apostas moderadas, entre 10 e 200 reais em jogos de futebol e eventos de MMA, seguindo conselhos do pai para manter o controle. Segundo ele, amigos que viam as apostas como fonte de renda extra acabaram se perdendo financeiramente.
O presidente do Sindicato dos Economistas do Espírito Santo, Sebastião Demuner, avalia que o impacto econômico da proibição deve ser temporário, já que o dinheiro que circulava nas apostas tende a ser redirecionado para o comércio e outros setores. Para ele, a única perda que não se ajusta facilmente é o endividamento já acumulado pelas famílias.
O cientista político Deivison Souza Cruz, da Ufes, destaca que a medida provisória ainda precisa ser votada pelo Congresso em até 120 dias, até janeiro de 2027, para se tornar lei definitiva. Segundo ele, afirmar que é o fim das bets seria precipitado, já que plataformas ilegais tendem a continuar existindo.
O subsecretário de Estado de Políticas sobre Drogas, Carlos Lopes, relaciona o crescimento das apostas à promessa de ascensão social rápida vendida por influenciadores e jogadores de futebol. A Rede Abraço, programa do governo do Espírito Santo que atende dependentes de apostas desde janeiro deste ano, já realizou 650 procedimentos terapêuticos entre janeiro e agosto, atendendo mais de 250 pessoas. O perfil predominante é de homens entre 25 e 34 anos, com ensino médio completo e renda de até um salário mínimo (R$ 1.621). Julho, mês da Copa do Mundo, registrou o pico de procura.
O atendimento da Rede Abraço é gratuito e não exige agendamento prévio, funcionando de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h, em três unidades: CAAD Vitória, na Rua Treze de Maio, 47, no Centro (telefone 0800 028 1028); CAAD Cachoeiro de Itapemirim, na Rua Dr. Raulino de Oliveira, 56, no Centro (telefone (28) 3028-2784); e CAAD Linhares, na Avenida Hans Schmoger, 333, no Bairro Conceição (telefone (27) 3150-2845).
Após a divulgação da medida provisória, operadoras de apostas licenciadas no país, representadas pela Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), divulgaram nota afirmando que a proibição levaria apostadores a plataformas clandestinas e reduziria a proteção dos usuários.


