A historiadora Mary Del Priore esteve recentemente em Vitória para uma palestra sobre a história da velhice no Brasil. O convite partiu da Academia Espírito-Santense de Letras em parceria com a Assembleia Legislativa do Espírito Santo, uma articulação entre instituições capixabas de peso cultural e político.

A visita da autora serviu de gancho para o professor emérito da Ufes João Gualberto comentar outra obra de Del Priore: 'Meu Nome é Francisca: uma história de Chica da Silva'. O livro é um romance histórico narrado em primeira pessoa, como se a própria Chica da Silva contasse sua trajetória, misturando fatos reais com elementos ficcionais.

Segundo o relato do livro, Chica da Silva nasceu entre 1731 e 1735 no arraial do Milho Verde, região onde hoje está Diamantina, em Minas Gerais. À época, a Capitania das Minas Gerais vivia o auge da exploração de ouro e pedras preciosas, atraindo portugueses em massa e dependendo inteiramente do trabalho forçado de africanos escravizados.

O texto destaca que era comum escravizados esconderem pequenas pedras — engolindo-as ou escondendo-as nos cabelos — para depois vendê-las e comprar a própria alforria. Um exemplo citado é Quitéria Alves da Fonseca, que comprou sua liberdade e chegou a ter seis pessoas escravizadas trabalhando para ela na faiscação.

O artigo aponta essa mobilidade social como um elemento central na formação da cultura e do imaginário social brasileiro. Muitos negros libertos, como Chica da Silva, conseguiram dar educação aos filhos, abrindo caminho para maior participação de descendentes de relações entre homens brancos e mulheres negras na sociedade colonial.

O professor conclui que a herança africana está presente até hoje na culinária, no gestual e na língua falada no Brasil, embora muitas vezes não seja reconhecida devido a preconceitos históricos ainda presentes.