O Espírito Santo viveu nesta quinta-feira um daqueles dias em que o contraste entre o planejamento e a execução fica evidente. De um lado, o governo estadual enviou à Assembleia Legislativa um projeto de orçamento de R$ 35,4 bilhões para 2027, 10,6% maior que o atual — um número grande, abstrato, que só vai virar obra, escola ou leito de hospital daqui a muitos meses de tramitação. Do outro lado, municípios como Cachoeiro de Itapemirim, Cariacica e São Mateus mostraram, com fatos concretos ocorridos nos últimos dias, que o desenvolvimento real do estado não espera a capital.
Cachoeiro de Itapemirim é o retrato mais claro disso. Na quinta-feira, 24 de setembro, durante a 8ª Conferência das Cidades, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (Semdurb) conduziu a eleição das entidades da sociedade civil que vão compor o Conselho do Plano Diretor Municipal no biênio 2026-2028. É participação popular institucionalizada, funcionando, decidindo o futuro urbano da cidade com gente de fora do governo sentada à mesa. No mesmo município, a economia também se movimenta: a Casa da Turbina inaugura nesta segunda-feira, dia 5 de outubro, sua terceira loja no Espírito Santo, no bairro Aeroporto, e a cidade se prepara para receber, a partir do dia 9, o 1º Oktober Fest Cachoeiro, com a Banda Casaca abrindo a programação musical na Estação Ferroviária.
Cariacica, por sua vez, vive dois movimentos simultâneos que merecem atenção. No campo econômico, a rede capixaba Casagrande inaugurou na terça-feira, 29 de setembro, um hipermercado de 3.500 m² em Porto de Cariacica, gerando 250 empregos diretos e testando um novo formato de loja que mistura supermercado tradicional com categorias especializadas. É investimento privado criando emprego real, hoje, não em 2027. No campo político, a decisão de Helder Salomão (PT) de disputar o governo do Espírito Santo e a saída de Marcelo Santos (União), presidente da Ales, para a disputa federal, reorganizam completamente o tabuleiro eleitoral do município — um efeito dominó que vai moldar quem disputa vagas na Câmara e na Assembleia em 2026.
Na saúde, o destaque vem do Norte do estado. O Hospital de Olhos São Mateus realizou, na terça-feira, 29 de setembro, o primeiro transplante de córnea já feito na região Norte do Espírito Santo, conduzido pela oftalmologista Luisa Chagas. É um marco que historicamente dependia de deslocamento até a Grande Vitória ou outros estados — e que agora passa a existir dentro da própria região, reduzindo distância e tempo de espera para pacientes capixabas.
Enquanto isso, a Grande Vitória segue concentrando capital, mas de forma desigual. O 47º Censo Imobiliário do Sinduscon mostrou que a região fechou o primeiro semestre de 2026 com 21.311 unidades em produção, alta de 12,2% em relação a janeiro — e Vila Velha sozinha concentra metade desse total. É sinal de aquecimento do setor da construção civil, mas também de que o crescimento imobiliário se concentra territorialmente, deixando outros municípios da região metropolitana em segundo plano.
Ainda em Vila Velha, outro investimento chama atenção pelo caráter estrutural: a ES Gás assinou contrato de R$ 7 milhões com a GNR Vila Velha para conectar à rede estadual uma planta de biometano instalada na Central de Tratamento de Resíduos (CTRVV). É um projeto de infraestrutura energética que transforma resíduo em fonte de energia — um tipo de investimento que não aparece em manchete grande, mas que tem potencial de impacto ambiental e econômico de longo prazo.
No campo social e cultural, o dia também trouxe gestos que humanizam a notícia. Em Cariacica, alunos da Escola Municipal Euvira Benedita Cardoso da Silva, de Novo Brasil, visitaram a sede da Rede Tribuna na terça-feira como parte do projeto Guardiões da Natureza, discutindo consumo consciente. Em Vitória, abre nesta quinta-feira, no Shopping Vitória, a exposição 'Você é Única', com fotos de 12 mulheres em tratamento ou remissão de câncer de mama — iniciativa que fica em cartaz até 25 de outubro e dá rosto e dignidade a uma luta que costuma ser invisível.
O que fica claro, somando esses fatos, é que o Espírito Santo de 2026 tem dois ritmos. Um é o ritmo da capital e do estado, que planeja em bilhões e décadas, como o orçamento de 2027 recém-enviado à Ales. O outro é o ritmo dos municípios, que entregam hoje: um conselho eleito, um transplante inédito, um hipermercado com 250 vagas, uma festa que começa na próxima semana. Nenhum dos dois ritmos é mais importante que o outro — mas o capixaba que lê a notícia sente o segundo no bolso e na vida antes do primeiro.
Vale observar nos próximos dias como a tramitação do orçamento estadual na Assembleia vai dialogar com essas demandas municipais já em curso, e se a reorganização política em Cariacica, puxada pelas candidaturas de Helder Salomão e Marcelo Santos, vai acelerar ou travar decisões locais até as eleições de 2026.



