Há um Espírito Santo nos números e outro na política, e neste início de agosto de 2026 os dois parecem caminhar em direções diferentes. Enquanto a Secretaria de Estado de Segurança Pública confirma que o estado fechou os sete primeiros meses do ano com 405 homicídios e feminicídios — o menor patamar desde que a série histórica começou, em 1996 —, a disputa pelo Palácio Anchieta patina num vácuo de representação, segundo apontou a coluna de Vitor Vogas. Ricardo Ferraço fazendo acenos à direita e Lorenzo Pazolini assumindo de vez o rótulo bolsonarista deixam um espaço vazio no centro do eleitorado capixaba, justamente quando o estado exibe resultados que não cabem facilmente em nenhuma das duas pontas do espectro.
O contraste fica mais evidente quando se olha a economia. Vitória fechou o primeiro semestre de 2026 na liderança da geração de empregos formais do Espírito Santo, com saldo positivo de 4.182 postos de trabalho, segundo o Caged. No mesmo período, o Conselho Nacional de Política Energética aprovou uma resolução que pode baratear a energia para a indústria capixaba, permitindo à União vender gás natural direto aos consumidores industriais, sem intermediários, via leilões da Pré-Sal Petróleo S.A. São dois movimentos que, somados, sugerem um estado atraente para investimento — mas que dependem de continuidade institucional, não de bandeira política.
A mobilidade também ganhou um capítulo relevante nesta semana: o TJES suspendeu, em despacho de 22 de julho, a sentença que proibia a Buser de operar no Espírito Santo, liberando a empresa até o julgamento final do processo. Para quem depende de deslocamentos entre a Grande Vitória e o interior — ou entre o estado e outras regiões do país — a decisão amplia opções de transporte por um preço mais competitivo, num momento em que o custo de vida ainda pesa no bolso do capixaba.
Enquanto isso, a vida cultural do estado segue movimentada e, em boa medida, alheia à turbulência eleitoral. O Cais das Artes, em Vitória, recebeu neste fim de semana a segunda edição do Circuito Cais, com música ao vivo, feira criativa e o lançamento do programa Ala Mar. A temporada de feijoadas das escolas de samba capixabas também começou neste domingo, com a Novo Império abrindo o calendário que segue até novembro, envolvendo oito agremiações. E o Festival de Teatro Seguros Unimed, que passará por Vitória, Colatina e Cachoeiro de Itapemirim entre 5 de setembro e 11 de outubro, reforça que a cultura capixaba não se resume à capital.
O interior, aliás, tem dado sinais de que quer protagonismo próprio. Colatina lançou nesta semana o projeto Colatina Tá na Moda, que vai unir comércio, capacitação e cultura para fortalecer o tradicional setor de confecção da cidade, com programação entre 15 e 19 de agosto. É um movimento pequeno em escala, mas simbólico: mostra que municípios do interior estão organizando suas próprias agendas de desenvolvimento, sem esperar que tudo seja decidido na Grande Vitória.
Nas cidades, a gestão pública também avança em ritmo silencioso. Cariacica definiu a empresa que vai construir o novo CRAS do Jardim de Alah, resultado de uma concorrência eletrônica aberta ainda em 2025. São obras que não fazem manchete de capa, mas sustentam a rede de assistência social num município historicamente carente de equipamentos públicos.
No fim das contas, o que este domingo mostra é um Espírito Santo com dois ritmos. Um ritmo prático, de números que melhoram — segurança, emprego, energia, mobilidade — e de agendas culturais e municipais que seguem seu curso independentemente do calendário eleitoral. E um ritmo político que ainda não decidiu quem vai interpretar esse momento. Se o centro do eleitorado capixaba realmente está vazio, como sugere a análise da coluna de Vogas, a pergunta que fica para os próximos meses é simples: alguém vai ocupar esse espaço antes que os extremos o façam por omissão?



