Há um contraste que resume o Espírito Santo desta sexta-feira para este sábado: de um lado, o comércio exterior capixaba levando um aperto que não escolheu; de outro, o mercado interno e o poder público tentando, cada um a seu modo, abrir novas frentes. É esse cruzamento — pressão de fora, reação de dentro — que dá o fio condutor do dia.
O aperto tem nome e data: entrou em vigor nesta sexta uma sobretaxa adicional de 12,5% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, somada à tarifa de 25% já existente. Café, pimenta-do-reino, gengibre, mamão, carne bovina e celulose — pilares tradicionais da pauta exportadora capixaba — ficaram de fora da lista negativa. Mas frango, ovos, pescados e rochas ornamentais não tiveram a mesma sorte. A avicultura e a pesca da Região Serrana entraram em alerta, e o setor de rochas de Cachoeiro de Itapemirim, um dos maiores polos do país, também pediu reforço nas negociações. A CNI defende manter o diálogo com Washington; o governo brasileiro promete linhas de apoio. Mas, na prática, quem exporta granito e mármore de Cachoeiro ou frango da Serrana vive agora sob incerteza de preço e contrato.
Enquanto o cenário externo aperta, o mercado de trabalho local tenta responder. Grandes empresas instaladas no Espírito Santo anunciaram cerca de mil vagas de emprego e estágio, cobrindo setores como energia, nutrição animal, metalmecânica e varejo — um sinal de que a economia estadual ainda tem fôlego para contratar, mesmo sob pressão tarifária. Em Cachoeiro de Itapemirim, o Sine reforçou esse movimento com um painel de 147 vagas em indústria, alimentação, comércio, construção civil e transporte, divulgado nesta sexta-feira. São números que não anulam o problema do tarifaço, mas mostram que o capixaba não está de braços cruzados.
Do lado do planejamento público, porém, o ritmo é outro. A Prefeitura de Vitória recuou da previsão de iniciar em setembro as obras de reurbanização da Beira-Mar e, agora, não tem nova data para anunciar. A justificativa é a espera por liberação de projetos executivos e licenças — um lembrete de que grandes intervenções urbanas na capital seguem reféns de burocracia, mesmo quando há vontade política declarada. É o contraponto necessário ao otimismo das vagas de emprego: nem tudo que se anuncia sai do papel no tempo prometido.
Já no campo do turismo, o estado tenta abrir uma porta nova. O Conselho Estadual de Turismo (Contures) se reúne no dia 28 de julho, no Hotel Senac Ilha do Boi, em Vitória, para discutir a confirmação de um voo experimental para Buenos Aires. Se sair do papel, será um movimento inédito de conectar o Espírito Santo diretamente ao público argentino, historicamente um dos maiores emissores de turistas para o Brasil. É uma aposta de médio prazo, que só fará sentido se vier acompanhada de infraestrutura — a mesma que, na Beira-Mar, ainda não tem cronograma.
No campo legislativo, a Assembleia aprovou, em sessão extraordinária de quinta-feira, o Projeto de Lei 892/2025, que isenta de ICMS a compra de ônibus, micro-ônibus e embarcações destinados ao transporte escolar. É uma medida discreta perto do tarifaço e das vagas de emprego, mas com efeito prático direto: reduz custo de renovação de frota para prefeituras e associações que atendem alunos da rede pública, especialmente em municípios do interior onde o transporte escolar por estrada ou balsa é vital.
Some-se a isso o pano de fundo da vida cotidiana capixaba neste sábado: o Festival Vinho & Mar fecha sua edição em Guriri, São Mateus, com shows gratuitos; a Carreta da Saúde da Mulher segue atendendo em Cachoeiro até o fim do mês; e a Cesan promove manutenção que interrompe o abastecimento de água em 264 bairros da Grande Vitória. São sinais de que o estado segue funcionando em várias velocidades — cultura, saúde básica, infraestrutura urbana — enquanto negocia, lá fora, o preço de seu frango e de sua pedra.
O que observar daqui para frente é claro: se a reunião do Contures confirmar o voo para Buenos Aires, será um teste de capacidade turística real do estado; se a Prefeitura de Vitória continuar sem data para a Beira-Mar, a cobrança política deve crescer; e se as negociações Brasil-EUA não avançarem, a pressão sobre avicultura, pesca e rochas capixabas tende a se aprofundar nas próximas semanas. O capixaba, por ora, segue tentando compensar fora do controle com o que consegue controlar dentro de casa: vagas, leis locais e turismo.


