O Espírito Santo vive um paradoxo interessante batizado pela pesquisa Quaest divulgada por A Gazeta nesta quinta-feira: Renato Casagrande tem 79% de aprovação, um número que qualquer governador do país assinaria sem pensar duas vezes. Mas apenas 25% do eleitorado capixaba sabe que ele apoia a candidatura de Ricardo. É a prova de que popularidade e transferência de voto são fenômenos distintos, e que capital político não se movimenta por decreto.
Esse descompasso importa porque 2026 já começou a ser desenhado, e não apenas pelas articulações estaduais. A mesma Quaest mostrou Flávio Bolsonaro com 42% das intenções de voto no Espírito Santo em um hipotético segundo turno contra Lula. O dado é relevante porque indica que a disputa presidencial pode pesar mais no imaginário capixaba do que qualquer aliança local, inclusive aquela costurada com o prestígio de Casagrande.
Enquanto a política tenta prever o próximo ano, a economia já cobra respostas imediatas. A tarifa de 25% que os Estados Unidos aplicam a partir do dia 22 sobre exportações brasileiras, com base na Seção 301, é uma ameaça concreta para exportadores capixabas — o estado vive de porto, de café, de siderurgia, de rocha ornamental. O governo Lula optou pela cautela antes de acionar a Lei de Reciprocidade, temendo uma escalada com Donald Trump, mas essa cautela em Brasília se traduz em ansiedade real nas empresas do Espírito Santo que dependem do mercado americano.
É nesse cenário de incertezas maiores que a gestão do dia a dia segue tentando provar serviço. As obras do Mergulhão de Camburi avançaram para a fase de fundações e estruturas, mas o preço imediato é mais uma faixa reduzida na Norte Sul, sentido Serra — o tipo de transtorno que testa a paciência do motorista capixaba e a paciência política de quem promete entrega.
A confiança nas instituições locais também foi tensionada nesta semana. A Justiça manteve afastados os quatro vereadores da Serra suspeitos de propina, reforçando que a crise de credibilidade política não é abstrata, é vereança suspensa desde setembro do ano passado. Some-se a isso o incêndio que atingiu vegetação no Parque da Fonte Grande, em Vitória, um símbolo urbano que expõe a fragilidade da gestão ambiental mesmo em áreas centrais da capital.
Há também sinais de que o Espírito Santo produz respostas próprias, fora do noticiário político-econômico. A Amaes completa mais de 25 anos como referência no atendimento a pessoas autistas, prova de que a rede de cuidado no estado pode se consolidar independente de ciclos eleitorais. E Viana recebe, entre 17 e 19 de julho, um festival gratuito que mistura balões iluminados e tradição do Congo — um contraponto cultural bem-vindo em uma semana carregada de tensão institucional.
O que observar daqui para frente é simples de enunciar e difícil de resolver: Casagrande precisará decidir se, e como, converte sua popularidade em voto transferível para Ricardo, correndo contra um relógio nacional que já mostra Flávio Bolsonaro competitivo no estado. Ao mesmo tempo, o capixaba médio vai sentir o tarifaço no bolso antes de sentir qualquer efeito eleitoral, e vai continuar enfrentando faixas reduzidas na Norte Sul enquanto espera que a política resolva, com prazo e nome, os problemas que anuncia.



