O crescimento no uso de medicamentos análogos de GLP-1, as chamadas canetas emagrecedoras, mudou o comportamento alimentar de parte da população e abriu espaço para novos produtos industrializados voltados a quem passou a comer menos.

Maria Amélia Julião, endocrinologista e presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional Espírito Santo (SBEM-ES), afirma que suplementos e produtos funcionais não substituem a matriz nutricional dos alimentos in natura. Segundo ela, ovos, carnes magras, leguminosas, vegetais coloridos, frutas e sementes oferecem fitoquímicos e nutrientes que nenhum produto industrializado repõe por completo.

A médica destaca que alimentos industrializados com menos gordura saturada e carboidratos refinados podem ajudar como suporte pontual no dia a dia, mas não devem se tornar rotina. Para ela, a manutenção da saúde metabólica, hormonal e cardiovascular depende de carboidratos complexos de qualidade, gorduras insaturadas e da diversidade de vitaminas, minerais e fibras presentes nos alimentos frescos.

A nutricionista Larice Matos reforça que quem usa análogos de GLP-1 precisa de uma alimentação rica em vitaminas, fibras e proteínas, já que essas medicações estão associadas a efeitos gastrointestinais, como constipação. Uma dieta pobre em fibras e líquidos pode agravar esse quadro.

No Espírito Santo, empresas do setor alimentício já adaptaram linhas de produtos a esse novo perfil de consumidor. A Porta da Horta, empresa de marmitas ultracongeladas que atua há nove anos, lançou em 2025 a linha Slim Fitness, com porções de 250 gramas voltadas tanto a usuários de canetas emagrecedoras quanto a quem busca emagrecer sem medicação. Segundo o proprietário Christian Costa, a linha já representa entre 30% e 40% do faturamento da empresa.

O Grupo Lamoia, que administra marcas como Luigi e Paletitas, também investiu em produtos com menos açúcar e mais proteína, como um picolé proteico sabor cappuccino com doce de leite, com 12 gramas de proteína por unidade. Segundo o diretor-presidente Wanderson Lamoia, a empresa planeja cerca de dez lançamentos ainda este ano, parte deles dentro dessa proposta de saudabilidade.

A reportagem também aponta reflexos do uso das canetas emagrecedoras em outros setores, como moda, estética e saúde capilar. A perda rápida de peso pode causar flacidez, elevando a procura por procedimentos dermatológicos e cirurgias plásticas, além de queda temporária de cabelo, o chamado eflúvio telógeno. Ao mesmo tempo, parte dos usuários passou a buscar musculação para preservar a massa muscular durante o tratamento.