O Espírito Santo vive hoje dois tempos de infraestrutura ao mesmo tempo. De um lado, a Grande Vitória volta a sonhar com uma obra grandiosa: um túnel submerso ligando a capital a Vila Velha, projeto que ganhou fôlego novo depois do sucesso do leilão da PPP do túnel Santos-Guarujá, em São Paulo. De outro, no distrito de Acioli, em João Neiva, motoristas enfrentam desvios de até 100 quilômetros porque um viaduto da BR 259 está interditado desde o início da semana. É o retrato de um Estado que discute o futuro distante enquanto tropeça no presente mais básico.
O túnel submerso entre Vitória e Vila Velha não é ideia nova — a discussão já passa de quase duas décadas sem sair do papel. O interesse renovado por causa do case paulista é compreensível: uma travessia rápida sob a Baía de Vitória resolveria décadas de gargalo na Terceira Ponte. Mas vale lembrar que o projeto de São Paulo levou anos de maturação técnica e financeira antes de chegar ao leilão. Para o Espírito Santo repetir o feito, seria preciso primeiro resolver o que já está no chão: rodovias, viadutos e escoamento de produção que hoje falham no dia a dia.
É nesse ponto que entra o outro grande fato da semana: o BNDES aprovou financiamento de até R$ 890 milhões para o governo capixaba investir em rodovias estaduais, dentro de uma operação maior de R$ 1,4 bilhão. O dinheiro deve custear implantação, pavimentação, recuperação e reabilitação de trechos por todo o Estado. É um recurso robusto, mas que precisa chegar rápido onde a dor é mais aguda — como na BR 259, onde o desvio provocado pela interdição em Acioli já consome tempo, combustível e paciência de quem depende da rodovia para trabalhar, escoar produção ou simplesmente ir e voltar de casa.
O caso do café ilustra bem essa urgência. O Espírito Santo exportou 775 mil sacas em julho, alta de 79% sobre o mesmo mês de 2025 — um resultado histórico que devia ser motivo de orgulho puro. Mas o crescimento também acendeu o alerta, discutido nesta quinta-feira (20) no Vitória Port Day, para a necessidade de mais investimento em infraestrutura portuária. De nada adianta produzir recorde se o escoamento — rodovia, porto, logística — não acompanha o ritmo da lavoura e da mineração.
Nesse cenário, a Vale também move suas peças: a mineradora protocolou pedidos para explorar terras raras, como cério e monazita, em cinco áreas do Espírito Santo, quatro delas em Linhares e uma em Jaguaré. Se avançar, o projeto pode reforçar ainda mais a pressão sobre estradas e portos do Norte capixaba, região que já sente na pele o gargalo da BR 259. A pauta econômica do Estado está, cada vez mais, amarrada à pauta logística — e o inverso também é verdadeiro.
Enquanto isso, a política observa e se organiza para outubro. A Rede Gazeta reuniu representantes de todas as candidaturas ao governo do Espírito Santo e ao Senado para definir as regras das sabatinas — um sinal de que a corrida eleitoral entra na reta em que infraestrutura, mobilidade e desenvolvimento regional devem virar tema central de debate. Não seria exagero esperar que o túnel submerso, o financiamento do BNDES e o gargalo da BR 259 apareçam nos discursos dos candidatos nas próximas semanas.
Há também o Espírito Santo do dia a dia, que segue funcionando à parte das grandes obras: a Ponte da Passagem, em Vitória, voltou a ter iluminação cênica nos cabos de aço, dentro do programa Vitória de Frente para o Mar — um símbolo pequeno, mas simbólico, de cuidado com o espaço público. E o Inmet alerta para vendaval e umidade baixa nesta sexta-feira, com ventos de até 60 km/h, o que reforça a atenção redobrada de quem estiver na estrada, especialmente nos trechos já sobrecarregados pelo desvio na BR 259.
No fim, a lição do dia é de contraste: o Espírito Santo sabe sonhar grande — um túnel submerso, um porto renovado, uma nova fronteira mineral — mas ainda tropeça no básico, como um viaduto interditado que isola distritos inteiros por dias. Os R$ 890 milhões do BNDES são uma oportunidade concreta de inverter essa lógica, desde que o dinheiro chegue com prioridade às rodovias que mais doem no cotidiano do capixaba, e não apenas aos projetos que rendem manchete.
Vale observar nos próximos dias: como o governo estadual vai distribuir o financiamento do BNDES entre obras emergenciais, como a BR 259, e projetos estruturantes de longo prazo; e se o tema do túnel submerso e da infraestrutura portuária de fato aparecer com força nas sabatinas eleitorais que a Rede Gazeta está organizando.



