O Espírito Santo tem hoje 4.150.692 habitantes, um crescimento de 0,58% sobre 2025 segundo as estimativas do IBGE divulgadas nesta semana. O dado, por si só, é discreto. Mas o detalhe que importa é onde esse crescimento acontece: não na Grande Vitória, e sim em municípios como Itapemirim, Presidente Kennedy e Serra, que lideram o avanço proporcional. É a confirmação de um movimento que vem se desenhando há anos — o capixaba está migrando para fora do núcleo metropolitano tradicional, em busca de espaço, custo de vida menor e, cada vez mais, de oportunidades que antes só existiam na capital.

Esse deslocamento populacional tem um preço, e ele aparece na infraestrutura. A BR-101, espinha dorsal que conecta o Norte ao Sul do estado e escoa boa parte dessa nova dinâmica demográfica, voltou a mostrar sinais de estresse nas últimas 24 horas. Em Fundão, o KM 235 da rodovia será totalmente interditado nesta quinta-feira, às 14h, para uma fragmentação de rochas com explosivos — parte das obras de duplicação que arrastam prazos há tempos. Mais ao norte, em Jaguaré, um caminhão caiu de uma ponte na própria BR-101 na noite de terça-feira, com o motorista escapando pelo teto da cabine, que ficou submersa. São dois episódios distintos, mas que falam da mesma rodovia sobrecarregada, ainda em obras, ainda arriscada.

Não é só a BR-101. Na Serra, um dos municípios que mais cresce no estado, um poste caiu sobre um carro na Rodovia do Contorno, em Alphaville Jacuhy, atravessando o para-brisa de um Hyundai HB20. O motorista escapou ileso, mas o episódio expõe outro ponto sensível: a infraestrutura urbana e viária dos municípios que mais recebem gente nova nem sempre acompanha o ritmo do crescimento. Crescer em população é uma coisa; crescer em qualidade de rodovia, iluminação pública e segurança viária é outra — e o Espírito Santo, pelos fatos desta semana, está mais avançado na primeira do que na segunda.

Enquanto isso, também em Jaguaré, uma adolescente de 13 anos sofreu queimaduras no rosto e no pescoço após a explosão de uma panela de pressão, sendo transferida de helicóptero. O episódio é doméstico, isolado, mas soma-se ao retrato de um Norte do Espírito Santo que segue exigindo mais atenção — seja em segurança viária, seja em serviços básicos de saúde e prevenção de acidentes domésticos, área que raramente entra no radar das políticas públicas municipais.

É nesse cenário de crescimento desigual e infraestrutura testada que a disputa eleitoral no Espírito Santo começa a ganhar contornos mais concretos. A Gazeta lançou a ferramenta Compare e Vote, permitindo ao eleitor colocar lado a lado as propostas dos candidatos ao governo estadual e à Presidência — um movimento que tende a elevar o nível do debate, tirando-o do terreno puramente retórico. Na sabatina promovida pelo veículo em parceria com a CBN Vitória, o deputado federal Helder Salomão (PT) defendeu a tarifa zero no transporte público, uma pauta que dialoga diretamente com o problema da mobilidade que os municípios em expansão — Serra, Itapemirim, Cariacica — vão precisar enfrentar nos próximos anos.

Aliás, Cariacica também sinalizou movimento nesta semana ao abrir consulta pública para mapear soluções inovadoras de emprego, buscando ligar trabalhadores a oportunidades por meio de um futuro edital de Contrato Público para Solução Inovadora. É um gesto pequeno, mas que indica que ao menos parte da gestão municipal está de olho no mesmo fenômeno que o IBGE capturou: mais gente, mais demanda por trabalho, mais pressão sobre serviços.

No horizonte de médio prazo, há também sinais mais animadores para o interior. São Mateus vai sediar, entre 8 e 10 de outubro, a 2ª Feira Internacional do Café Conilon, reunindo discussões sobre pimenta-do-reino, logística e comercialização — um lembrete de que o Norte capixaba não é só rota de acidentes rodoviários, mas também motor econômico agrícola relevante para o estado.

O que fica desta quinta-feira é uma equação que o próximo governo estadual, seja qual for o resultado das urnas, vai precisar resolver: como sustentar o crescimento populacional do interior e da Região Metropolitana sem repetir os gargalos de infraestrutura que a BR-101 e as rodovias urbanas vêm expondo semana após semana. O eleitor capixaba, com ferramentas como o Compare e Vote e propostas como a tarifa zero em discussão, tem agora mais elementos para cobrar respostas concretas — e não apenas promessas de campanha.