Enquanto Ferraço, Pazolini e Salomão trocavam argumentos no debate promovido pela A Gazeta e pela CBN Vitória nesta terça-feira, 22 de setembro, o Espírito Santo real continuava se movendo em outro ritmo, mais silencioso e mais concreto. É esse contraste que define o estado neste fim de setembro de 2026: a política discute cenários para o futuro enquanto a economia e a cultura do interior já entregam resultados palpáveis hoje.
O caso mais evidente é Cariacica. O município abriu 8.747 novas empresas nos oito primeiros meses do ano, um salto de 27,1% em relação a 2025, e mantém pelo quinto ano consecutivo a liderança estadual em facilidade para abrir negócios. Não é um dado isolado: é a confirmação de que a cidade deixou de ser vista apenas como periferia logística da Grande Vitória e passou a ser protagonista de um modelo de desenvolvimento que outros municípios ainda tentam copiar.
Enquanto isso, no debate em Vitória, os três candidatos discutiam propostas de gestão e segurança pública, temas relevantes, mas que ainda soam abstratos diante de números como os de Cariacica. A pergunta que fica é simples: qual desses planos de governo dialoga diretamente com o tipo de crescimento que Cariacica já está produzindo sozinha, sem esperar decisão de Brasília ou do Palácio Anchieta?
No interior, a ExpoAgro de São Mateus reforçou outra faceta do Espírito Santo que a política nem sempre consegue captar: a força do agronegócio como motor cultural e econômico. O show de Ana Castela no domingo, quarto dia da festa, lotou o Parque de Exposições e travou o trânsito de acesso à cidade — uma multidão que não foi ao evento por debate político, mas que representa exatamente o eleitorado que qualquer candidato precisa entender para governar o estado inteiro, não só a capital.
Guarapari, por sua vez, viveu dois sentimentos opostos na mesma semana. De um lado, celebrou 135 anos como a preferida histórica dos mineiros, título que segue confirmado por levantamentos recentes de fluxo turístico. Do outro, perdeu, depois de 26 edições seguidas, o Festival de Verão Mais, que não acontecerá em 2027. É um símbolo de que tradição turística consolidada não garante sustentabilidade de eventos — e isso deveria estar na pauta de qualquer debate sobre política estadual de turismo, algo que não apareceu com força na disputa eleitoral desta terça.
No campo social, os R$ 57 milhões liberados pelo INSS para cerca de 3 mil beneficiários capixabas mostram que o Judiciário federal continua fazendo, na prática, parte do trabalho que a política estadual só promete fazer: colocar dinheiro de volta no bolso de quem já esperou demais por direitos reconhecidos judicialmente.
No esporte, o Espírito Santo também deu recados de organização e crescimento. A RP Academy venceu nas duas categorias na estreia das Copas ES, e o Capixabão Feminino teve Prosperidade, MDE e FC Estadual confirmando classificação a uma rodada do fim da fase inicial. São sinais de um estado que, longe das disputas partidárias, constrói base esportiva de forma consistente, com Serra, Vila Velha e Cariacica novamente aparecendo como polos relevantes.
O fio que conecta tudo isso é claro: o debate eleitoral de terça-feira discutiu o Espírito Santo do papel, mas o Espírito Santo real segue sendo escrito em Cariacica, São Mateus, Guarapari e nas quadras onde o esporte capixaba já não depende de promessa nenhuma. Nos próximos dias, vale observar se os candidatos vão citar esses números concretos em vez de generalidades — e se Guarapari conseguirá reverter a pausa do Festival de Verão Mais antes que a lacuna se torne permanente.


