O Espírito Santo está mudando de lugar dentro de si mesmo. Não é uma frase de efeito: é o que mostram os índices provisórios de participação dos municípios no ICMS, publicados nesta quarta-feira (12) pelo governo do estado. Cariacica ultrapassou Vitória e assumiu a segunda posição no ranking de repasses que vai valer em 2027, atrás apenas de Serra, que segue na liderança. No interior, São Mateus deve superar Cachoeiro de Itapemirim, tradicional polo econômico do Sul do estado.
Esses números não são só estatística fiscal. O ICMS é o principal indicador de atividade econômica municipal — reflete indústria, comércio, circulação de mercadorias. Quando Cariacica ganha posição sobre a capital e São Mateus avança sobre Cachoeiro, o que se vê é a consolidação de polos que por décadas foram tratados como periferia econômica da Grande Vitória e do eixo Sul. A pergunta que fica é: o que sustenta esse crescimento e ele resiste a um cenário nacional mais apertado?
Porque é exatamente nesse ponto que a notícia capixaba encontra a notícia nacional. Economistas como Armínio Fraga e Alfredo Setubal alertaram nesta semana para o risco de recessão no Brasil em 2027 — justamente o ano em que os novos índices de ICMS vão valer. O diagnóstico é nacional, mas o Espírito Santo não vive isolado: se a economia brasileira desacelerar, os municípios que hoje comemoram a subida no ranking podem sentir o freio antes mesmo de colher os frutos da ascensão.
Enquanto isso, a Grande Vitória segue investindo em infraestrutura como se apostasse na continuidade do crescimento. Vila Velha abriu licitação para projetar e construir um corredor de ônibus entre a Terceira Ponte e a Avenida Carlos Lindenberg, além de uma ciclovia até a Prainha — um projeto que aposta em mobilidade de médio e longo prazo. No mesmo município, as obras do Expresso GV já mexem na rotina de quem circula por Jardim Marilândia: a partir desta quinta-feira (13), o cruzamento da Lindenberg com a rua Felicidade Siqueira fecha às 10h.
Há uma tensão interessante nesse retrato: de um lado, cidades como Vila Velha investem pesado em transporte coletivo e ciclovias, sinalizando uma aposta estrutural na expansão urbana. De outro, o discurso econômico nacional pede cautela. Investir em mobilidade é decisão de longo prazo — leva anos para maturar —, e o momento de incerteza pode testar a paciência de gestores e contribuintes.
O dia também trouxe sinais de que a vida capixaba segue seu ritmo, independentemente das grandes movimentações fiscais. Guarapari registrou aumento de casos de catapora e a Secretaria de Saúde já orienta a população, num contexto em que o El Niño intensifica alergias respiratórias em todo o país. Em Cachoeiro de Itapemirim, alunos do Senac desenvolveram protótipos tecnológicos na Sala Inspira+, mostrando que o interior também produz inovação, não só ICMS. E o Corpo de Bombeiros iniciou a Fase II da Operação Bioma em Aracruz, Pinheiros e Linhares, reforçando a prevenção a incêndios florestais antes do período mais crítico do ano.
O que fica claro é que o Espírito Santo vive um momento de reacomodação. Municípios que antes ficavam à sombra de Vitória e Cachoeiro agora disputam espaço fiscal e econômico, ao mesmo tempo em que a capital e Vila Velha tentam garantir infraestrutura para sustentar seu próprio crescimento. A pergunta que vale acompanhar nos próximos meses é simples: os novos protagonistas do ICMS — Cariacica e São Mateus — vão conseguir traduzir essa subida em investimento público real, ou o alerta de recessão nacional vai esvaziar o fôlego antes que 2027 chegue de fato?



