Não é coincidência que, no mesmo fim de semana, um capixaba tenha caído de maca em Las Vegas, uma influenciadora tenha suado fantasiada de bombom em Camburi, o IBGE tenha revelado quase 18 mil nonagenários no estado e uma turma de palhaços tenha completado 25 anos alegrando crianças doentes. São histórias de editorias diferentes, mas contam a mesma tese: o corpo capixaba está sendo testado — pelo esforço, pela idade, pela doença — e a resposta a esse teste continua sendo, majoritariamente, coletiva e afetiva.
Começa pelo esforço extremo. Neste domingo (27), a 35ª edição das Dez Milhas Garoto saiu da Praia de Camburi rumo à Fábrica de Chocolates, em Vitória, sob calor que testou até os mais preparados. Entre os milhares de participantes, a influenciadora de corrida Julia Sette correu fantasiada de bombom — um símbolo bem-humorado de como o esporte de massa no Espírito Santo já não é só sobre performance, é também sobre espetáculo, comunidade e resistência ao clima capixaba, que não perdoa em setembro.
Do outro lado do espectro do esforço físico, o mesmo fim de semana trouxe um alerta duro: o lutador Raoni Barcelos desmaiou no quinto round da luta contra o mexicano Raul Rosas Jr, no UFC Vegas 121, neste sábado (26), e precisou deixar o octógono de maca. O episódio, ainda que fora do estado, ecoa no Espírito Santo porque reacende um debate recorrente no esporte de alto rendimento: até onde vai o limite seguro do corpo antes que o desempenho vire risco à saúde — uma pergunta que vale tanto para lutadores profissionais quanto para os milhares de amadores que se arriscam em provas de rua sob calor extremo.
Enquanto o esporte mostra o corpo em sua versão mais extenuada, o IBGE trouxe nesta semana o retrato do corpo que resiste ao tempo. O Espírito Santo tem 17.697 pessoas com 90 anos ou mais em 2026, segundo projeção do instituto. O Censo 2022 já havia identificado 678 capixabas centenários, entre eles Jandyra Faria dos Santos, moradora de Ibiraçu — um número que reforça algo que gestores públicos já sabem, mas nem sempre planejam: o estado está envelhecendo mais rápido do que sua rede de saúde e assistência social consegue se preparar.
É justamente na interseção entre corpo fragilizado e cuidado que entra a quarta história do dia. Há 25 anos, a Turma do Dr. Unimed visita hospitais da Grande Vitória levando piadas, mágicas e balões para crianças internadas. Só no primeiro semestre de 2026, o grupo já realizou 27 ações, alcançando centenas de pacientes pediátricos. Não é acaso que essa iniciativa exista e persista: onde o corpo mais sofre — nos leitos infantis — a resposta capixaba historicamente tem sido inventar alegria, não apenas remédio.
O fio que amarra essas quatro histórias é simples de enunciar e difícil de resolver: o Espírito Santo vive, ao mesmo tempo, o auge da performance física, a fragilidade da doença, o avanço da longevidade e a necessidade permanente de cuidado humano. Uma corredora fantasiada de bombom e um lutador desacordado em Las Vegas são, no fundo, duas faces da mesma pergunta sobre limites do corpo. E entre a maratona de Camburi e o leito hospitalar, o denominador comum segue sendo o mesmo desde sempre: alguém precisa cuidar de quem está no limite.
Para os próximos meses, vale observar três frentes que essas notícias antecipam. Primeiro, se a Prefeitura de Vitória e os organizadores de provas de rua vão revisar protocolos de calor e hidratação diante de edições cada vez mais concorridas das Dez Milhas Garoto. Segundo, se o crescimento da população nonagenária vai se traduzir em investimento real em geriatria e assistência domiciliar na Grande Vitória e no interior, onde casos como o de Ibiraçu mostram que a longevidade já é realidade municipal, não só estatística nacional. E terceiro, se iniciativas como a Turma do Dr. Unimed vão ganhar reforço público, já que 25 anos de atuação voluntária mostram uma lacuna que o poder público ainda não preencheu sozinho.



