Há um Espírito Santo que está deixando de girar em torno de Vitória, e os números divulgados nesta segunda-feira, 17 de agosto, comprovam isso com uma precisão que nenhum discurso político consegue rebater: no rateio provisório do ICMS para 2027, Cariacica ultrapassou a capital, e Linhares superou Vila Velha. Não é um detalhe técnico de planilha estadual — é a fotografia de um estado que está redistribuindo seu peso econômico.
Cariacica não chegou a essa posição por acaso. O município vive uma explosão de lançamentos imobiliários, com previsão de 488 novas unidades residenciais neste ano, movimento diretamente ligado à sua ascensão logística e à proximidade com o Porto de Vitória e os eixos rodoviários que cortam a Grande Vitória. Hoje entre os 100 maiores PIBs do país, a cidade deixou de ser vista apenas como periferia dormitório e passa a disputar investimento e arrecadação de igual para igual com Vitória.
O interior também deu, neste fim de semana, um recado de inovação que merece atenção. Uma fazenda de Linhares secou parte da safra de café conilon usando gás natural no lugar da lenha — a primeira experiência do tipo registrada no Brasil. É um símbolo pequeno em volume, mas grande em direção: o Espírito Santo, maior produtor de conilon do país, começa a testar tecnologia que pode reduzir custo e impacto ambiental numa cadeia que sustenta dezenas de municípios do Norte e Noroeste capixaba.
Enquanto isso, Vitória segue investindo no capital simbólico e esportivo. A entrega do Centro Náutico de Pontal de Camburi, no domingo, transforma a orla da capital na primeira base de porte da Federação de Remo Capixaba e sede permanente da seleção brasileira de remo de praia. É um ativo relevante para o turismo esportivo e para a projeção nacional da cidade, mas não substitui a discussão sobre arrecadação e geração de emprego que agora passa, cada vez mais, pelos municípios vizinhos.
O Campeonato Capixaba também reforça esse tabuleiro plural: o Sport-ES, de Serra, goleou o Pinheiros por 4 a 1 e se aproxima do G-2 da Série B, mostrando que o entorno da capital também compete — e bem — fora dos números econômicos.
Mas nem tudo no estado avança na mesma velocidade. A madrugada deste domingo trouxe um lembrete duro sobre infraestrutura viária: um acidente entre carro e ônibus na BR-101, em Linhares, deixou sete feridos, evidenciando que o mesmo eixo logístico que atrai investimento também concentra risco quando a fiscalização e a manutenção não acompanham o fluxo. E, na Grande Vitória, a Defesa Civil precisou alertar para risco de alagamento em Vitória, Vila Velha e Cariacica — mostrando que mesmo os municípios em ascensão ainda dependem de obras básicas de drenagem que não acompanham o crescimento imobiliário.
Há também um capítulo silencioso, mas relevante, na área da saúde: o Espírito Santo coletou 2.287,70 litros de leite materno doado no primeiro semestre, um indicador de rede pública funcionando bem mesmo diante de hospitais como o Hucam, em Vitória, que enfrentam demanda alta. É o tipo de dado que não vira manchete, mas sustenta vidas de recém-nascidos em todo o estado.
O que este domingo e esta segunda-feira mostram, lidos em conjunto, é que o Espírito Santo caminha para um modelo mais distribuído de desenvolvimento — Cariacica crescendo em arrecadação e moradia, Linhares inovando na base produtiva do café, Serra disputando espaço no esporte, e Vitória concentrando investimento simbólico e cultural, como a curadoria de arte que o Shopping Vitória inaugura nesta quarta-feira com obras de Moacyr Travaglia.
Vale observar, nas próximas semanas, se a Grande Vitória consegue equilibrar essa nova geografia econômica com investimento equivalente em drenagem e segurança viária — porque de nada adianta Cariacica crescer em PIB se a infraestrutura básica da região continua vulnerável a cada chuva mais forte.



