O Espírito Santo de outubro de 2026 carrega um contraste que não cabe em uma única manchete: de um lado, mais de 1,4 milhão de capixabas inadimplentes segundo a Serasa; do outro, uma máquina pública que multiplica mutirões, feirões e metas batidas como resposta. A pergunta que fica no ar não é se o estado está agindo — está —, mas se essa ação chega a tempo e na escala certa para quem mais precisa.
Os feirões de renegociação de dívidas, que começaram nesta terça-feira (27) e seguem por cidades do ES ao longo de novembro, são a tentativa mais direta de endereçar esse problema. Mais de um milhão de pessoas inadimplentes é um número que pesa sobre o consumo, sobre o crédito e sobre a própria confiança econômica do capixaba. Não é coincidência que esses mutirões cheguem justamente quando o comércio se prepara para o fim de ano — regularizar nome e CPF é também reabrir a porta para o crédito das compras de dezembro.
No mesmo compasso, Cariacica ofereceu 1.700 vagas de emprego em um único mutirão no bairro Porto de Santana nesta terça-feira. A ação, que reuniu empresas do comércio e outros setores, é sintoma de uma estratégia municipal clara: se a dívida é o problema, o emprego formal é parte da solução. Mas 1.700 vagas, por mais relevantes que sejam, são uma gota diante de um universo de mais de um milhão de inadimplentes — o que expõe os limites da resposta local frente a um problema de escala estadual.
Há, porém, sinais de que o Espírito Santo consegue entregar resultado quando a gestão é consistente. O estado bateu a meta de 135 mil cirurgias eletivas do programa OperaES dois meses antes do prazo estipulado para 2026. É uma notícia que, à primeira vista, parece distante da discussão econômica, mas não é: filas de cirurgia resolvidas significam trabalhadores voltando mais rápido à rotina produtiva, famílias poupando gastos com saúde privada e um sistema público que mostra capacidade de planejamento — o mesmo tipo de planejamento que falta, por ora, para o combate à inadimplência em massa.
Enquanto isso, o interior e o litoral sul do estado escrevem outra história. Guarapari, tradicionalmente dependente do verão e das praias, já soma R$ 4,157 bilhões em atividade econômica diversificada, segundo o Instituto Jones dos Santos Neves, com a população crescendo 18,4% entre 2010 e 2022. É a prova de que o Espírito Santo não vive só de Grande Vitória nem só de temporada — há um município capixaba se reinventando fora do calendário turístico, o que deveria servir de inspiração para outras cidades do interior que ainda apostam todas as fichas numa única sazonalidade.
No campo institucional, o contrato de cinco anos entre o Banestes e o Prodest para hospedar dados no Data Center do Estado, em Vitória, é um movimento silencioso mas estratégico: exige disponibilidade de quase 100% das informações e fortalece a infraestrutura digital pública capixaba, num momento em que segurança de dados financeiros é tão sensível quanto a própria saúde das contas das famílias.
A Defesa Civil também lembrou o capixaba de que o estado opera sob riscos naturais constantes: o alerta de tempestades que vigorou até a manhã de terça-feira, cobrindo os 78 municípios, é um retrato de como o ES precisa equilibrar urgências climáticas com urgências econômicas e de saúde, muitas vezes simultaneamente.
Por fim, dois sinais menores completam o quadro do dia: a preparação dos cemitérios da Grande Vitória para o Dia de Finados, na próxima segunda-feira, e a presença de Helô Pinheiro em Vitória para lançar seu livro infantil nesta quarta. São lembretes de que, por trás dos indicadores econômicos e das metas de governo, a vida segue — com suas tradições, seus afetos e seus pequenos respiros culturais.
O que observar daqui para frente é se os feirões de novembro conseguirão de fato reduzir o volume de inadimplência capixaba, ou se serão apenas um alívio pontual. A resposta definirá se o Espírito Santo transforma o momento de ajuste em recuperação estrutural ou apenas em um paliativo para fechar o ano com números menos dramáticos.


