Hoje, 12 de agosto, o Espírito Santo mostra uma contradição que vale a pena parar para entender. De um lado, um levantamento da Gartner revela que 22% das lideranças de RH já deixaram de contratar para cargos de entrada por conta da automação com Inteligência Artificial — e especialistas locais confirmam que o efeito chegou ao mercado capixaba. Do outro, o Sicoob ES anuncia R$ 951,2 milhões em sobras no primeiro semestre de 2026, alta de 27,6% sobre o mesmo período do ano passado, com ativos somando R$ 39,9 bilhões. O dinheiro circula, o crédito cresce, mas a porta de entrada para quem está começando a carreira fica mais estreita.
Essa é a tese do dia: o Espírito Santo não está em crise, está em transição. O capital financeiro engorda, os bancos e cooperativas lucram, mas o emprego tradicional de entrada — aquele primeiro estágio, aquela vaga júnior que sustentava a mobilidade social de milhares de famílias capixabas — perde espaço para algoritmos que fazem triagem, atendimento e tarefas repetitivas com mais velocidade e menos custo. É um fenômeno nacional, mas ganha contornos locais quando confrontado com iniciativas como as do IEL-ES, que hoje mantém 19 vagas abertas entre estágio, emprego formal e o programa Inova Talentos, atendendo Vitória, Cariacica, Vila Velha, Serra e Linhares. Dezenove vagas não resolvem um problema estrutural, mas mostram que o setor produtivo local ainda tenta compensar, na prática, o que a automação retira em teoria.
Enquanto isso, o governo federal avança em outra frente que também vai reorganizar o sistema financeiro: a proposta de pagar R$ 0,39 por operação aos bancos que operarem o split payment, o novo mecanismo de recolhimento automático de tributos da reforma tributária. Se sair do papel, o impacto chega ao comércio e aos serviços capixabas, encarecendo ou reorganizando o custo operacional de quem vende no Espírito Santo — inclusive cooperativas como o próprio Sicoob, que deve se adaptar ao novo fluxo de arrecadação. É outro sinal de que a engrenagem econômica está sendo reprogramada por tecnologia e por regra, não só por oferta e demanda.
No campo da segurança, a Polícia Civil do Espírito Santo intimou cerca de 500 pessoas para devolver celulares com registro de roubo, furto ou perda, em diligências iniciadas na segunda-feira, 10 de agosto. É um recorte menor na pauta do dia, mas conversa com o mesmo tema de fundo: tecnologia como ferramenta de rastreamento e controle, agora usada pelo Estado para recuperar patrimônio e devolver à sociedade um mínimo de ordem sobre bens que circulam na economia informal.
Nas cidades, a vida segue em obras. A Avenida Champagnat, na Praia da Costa, em Vila Velha, deve reabrir até domingo, 15 ou 16 de agosto — os próprios boletins municipais ainda divergem no dia exato, o que mostra como cronogramas de obras urbanas seguem sendo um ponto de atrito entre prefeitura e população. Em paralelo, o cruzamento da Rua Felicidade Siqueira com a Carlos Lindenberg fecha a partir de quinta-feira para as obras do Expresso GV, e o Pontal de Camburi, em Vitória, ganha nova área de lazer no sábado. São investimentos que seguem seu curso independentemente da turbulência no mercado de trabalho — prova de que a infraestrutura capixaba não para, mesmo quando a base de empregos está em xeque.
Por fim, dois eventos marcam a semana como vitrine do capital humano do Estado: o Congresso Estadual da Advocacia da OAB/ES, que reúne 1.200 advogados em Vitória nesta quarta e quinta, e a segunda edição da Jornada do Patrimônio, entre 18 e 20 de agosto, em Cachoeiro de Itapemirim e Itapemirim. Ambos reforçam que o Espírito Santo aposta em qualificação, debate técnico e preservação de identidade como resposta indireta à pressão da automação — mesmo que isso não apareça explicitamente nas pautas dos eventos.
O que observar dos próximos dias: se o IEL-ES e programas semelhantes vão conseguir escalar a oferta de vagas de entrada na mesma velocidade em que a IA as elimina, e se o split payment vai, de fato, encarecer o custo bancário para pequenas empresas capixabas. O dinheiro no Espírito Santo está crescendo — a pergunta que fica é para quem, e com que trabalho, esse crescimento vai continuar sendo distribuído.



