Há uma tese incômoda escondida nas notícias desta semana: o Espírito Santo sabe atrair capital pesado, mas ainda não resolveu problemas básicos de registro, controle e memória institucional. De um lado, GWM em Aracruz e TotalEnergies em Presidente Kennedy sinalizam um Estado industrial pujante. Do outro, dados do TSE, do Detran-ES e do TJES mostram um sistema público que falha justamente onde deveria ser mais sólido: no cadastro do eleitor, na fiscalização de motoristas e na guarda de documentos.
O dado do TSE divulgado na segunda-feira, 20 de julho, é o mais simbólico. O Espírito Santo lidera o ranking nacional de eleitores sem cadastro biométrico, com 27,61% do eleitorado — mais de 800 mil capixabas — ainda fora do sistema. Isso não é um detalhe técnico: em ano de eleição, biometria pendente significa filas maiores, risco de impugnação de título e um retrato de que a modernização eleitoral ainda não chegou a todos os cantos do Estado, especialmente no interior.
O Detran-ES, por sua vez, mostra outro tipo de falha de controle, mas com direção inversa: mais rigor. A cassação de CNHs subiu 58,9% em 2026, saltando de 316 para 502 casos entre janeiro e julho, com destaque para municípios como Cachoeiro de Itapemirim. É um sinal de que a fiscalização está funcionando melhor — mas também expõe quantos motoristas capixabas vinham dirigindo em situação de risco sem que isso aparecesse antes nas estatísticas.
Enquanto isso, na Serra, o TJES lida com um problema mais grave e mais simbólico: o incêndio que destruiu o Arquivo Geral do Judiciário em Jardim Limoeiro. A criação de um comitê temporário para apurar danos e tentar reparar o que foi perdido é necessária, mas chega tarde para o que já se queimou. Processos, históricos, decisões — memória institucional inteira reduzida a cinzas, num prédio que deveria ser, por definição, o lugar mais seguro para guardar documentos.
Em Colatina, a Câmara Municipal escolheu não ampliar o controle: rejeitou por 9 votos a 4 o projeto que previa câmeras obrigatórias dentro das salas de aula das escolas públicas. É um episódio pontual, mas que dialoga com o mesmo tema de fundo — o Espírito Santo debate constantemente até onde deve ir a vigilância e o registro da vida pública, sem um consenso claro sobre o equilíbrio entre proteção e privacidade.
No campo político-eleitoral, a multa de R$ 24 mil aplicada pelo TRE-ES ao deputado Lucas Polese, por propaganda antecipada negativa contra Renato Casagrande, e o movimento do partido Novo se afastando de Pazolini para negociar com o PL mostram que o tabuleiro de 2026 já está em jogo, com decisões judiciais e realinhamentos de bastidor moldando a corrida antes mesmo da campanha oficial começar.
O contraste com a economia é evidente e vale destacar: a fábrica da GWM em Aracruz já aquece o setor metalmecânico, com previsão de mais vagas e salários melhores em automação e mecânica. A TotalEnergies avança com R$ 871,1 milhões em estudo de armazenamento de carbono no mar de Presidente Kennedy. E o MPF-ES abre estágio com bolsa de até R$ 2.640. São sinais de um Estado que sabe negociar grandes contratos e atrair investimento qualificado — mas que precisa aplicar a mesma competência na manutenção dos sistemas que sustentam a vida cívica cotidiana.
O que observar a partir de agora: se o TSE e os cartórios eleitorais vão conseguir reduzir o índice de biometria pendente antes do prazo eleitoral se esgotar; se o comitê do TJES vai apresentar um plano concreto de reconstrução do Arquivo Geral, e não apenas um gesto simbólico; e se a disputa em torno de Polese e do racha do Novo antecipa um cenário de campanha mais judicializada do que qualquer eleição recente no Espírito Santo.



