Toda vez que o Espírito Santo fala em futuro, aparece uma comparação grandiosa. Hoje foi Israel. Durante a Mec Show, o Centro Capixaba de Desenvolvimento Metalmecânico apresentou a meta de tornar o estado uma referência em tecnologia e inovação, usando o país do Oriente Médio como espelho. É um projeto ambicioso, e não é balela: indústrias capixabas já mostraram na própria feira que estão investindo pesado em robôs e inteligência artificial para elevar produtividade e reduzir riscos no chão de fábrica.

O discurso tem lastro em números concretos. O Espírito Santo tem 97,1% de acesso à internet, segundo o projeto Brasil em Mapas — acima da média nacional de 96,8% e quase no nível do Sudeste, que soma 97,5%. É base de conectividade que sustenta qualquer ambição de virar polo tecnológico. Mas conectividade não é a mesma coisa que infraestrutura física, e é aí que a narrativa capixaba de sempre volta a aparecer.

Enquanto se discute robótica avançada em Serra, a Ecovias Capixaba ainda negocia com a ANTT algo bem mais modesto: um viaduto de acesso ao distrito de Safra, em Cachoeiro de Itapemirim, na BR-101. Não é wearable, não é IA generativa — é engenharia civil básica que reduz risco de acidente numa via federal movimentada. O fato de ainda estar em negociação mostra a distância entre o discurso de ponta e a realidade de obras que se arrastam nos bastidores da burocracia rodoviária.

Cachoeiro, aliás, carrega outro símbolo do dia: é a cidade que detém o recorde de temperatura mais alta já registrada no Espírito Santo, 43°C, medidos em 31 de outubro de 2012, segundo o Incaper. O dado não é de hoje, mas voltou à conversa justamente quando o estado discute clima, produtividade industrial e o preço de operar fábricas e logística sob calor extremo. Automação e IA prometem reduzir a exposição do trabalhador a esse tipo de risco físico — e aqui a ambição tecnológica encontra uma justificativa concreta, não apenas de marketing.

Do lado da saúde, a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular trouxe um alerta que passa longe das manchetes de inovação: cerca de 40% da população deve desenvolver alguma doença venosa nos membros inferiores ao longo da vida, o que representa mais de 1,6 milhão de capixabas. É um número que não aparece em nenhuma apresentação de robótica, mas afeta diretamente a capacidade produtiva do estado — trabalhador com dor crônica nas pernas rende menos, adoece mais, falta ao trabalho. Se o Espírito Santo quer ser polo de produtividade, precisa cuidar também da saúde básica da força de trabalho que vai operar essas máquinas novas.

No litoral Norte, outro dado incomoda o discurso de progresso: um estudo da UFRJ e da UFRPE identificou deformações em 60,5% dos exemplares de uma espécie de peixe analisada na foz do Rio São Mateus, perto de Conceição da Barra. É um indício de degradação ambiental que a narrativa de polo tecnológico raramente inclui na conta. Tecnologia e inovação não substituem monitoramento ambiental sério, e o Espírito Santo tem histórico de conviver mal com esse tipo de sinal de alerta até que se torne crise.

O fio que une esses fatos é simples: o estado tem discurso de vanguarda tecnológica, internet acima da média nacional e indústrias investindo em automação — mas ainda resolve problemas de primeira geração, como um viaduto simples numa BR federal, doenças evitáveis que afetam quase um sexto da população e sinais de contaminação ambiental que pedem resposta rápida. Não são contradições que anulam a ambição, mas que exigem equilíbrio na pauta pública.

O que observar nos próximos dias é se o discurso do CDMEC vira plano com prazo e investimento definidos, ou fica apenas comparação retórica com Israel. Também vale acompanhar se a negociação do viaduto de Safra avança com a ANTT ou entra na fila das obras eternamente prometidas na BR-101. O Espírito Santo pode, sim, mirar alto em tecnologia — mas só sustenta esse voo se resolver, ao mesmo tempo, o que está literalmente no chão.