O Espírito Santo que acorda nesta quarta-feira, 14 de outubro, é um estado de contrastes nítidos. De um lado, Presidente Kennedy recebe a notícia de que vai sediar duas usinas termelétricas a gás natural da Eneva, com investimento de R$ 4 bilhões recém-autorizado pelo Ministério de Minas e Energia. De outro, a Grande Vitória — capital inclusa — convive com bloqueios, obras inacabadas e ciclovias que travam o trânsito. É o retrato de um ES que cresce em dois ritmos diferentes, e vale parar para entender o que isso significa.
O aporte da Eneva no Sul capixaba não é um detalhe qualquer. Quatro bilhões de reais em infraestrutura energética representam empregos diretos na construção civil, arrecadação de ICMS para o município e um reposicionamento de Presidente Kennedy no mapa industrial do estado — historicamente uma região mais ligada à agropecuária e ao turismo de praia do que à grande indústria. O projeto reforça uma tendência que já vinha se desenhando: o Sul do Espírito Santo virando destino de investimentos pesados em energia, puxado pela proximidade com a malha de gás natural que atravessa a região.
Enquanto isso, a capital e seus arredores vivem o lado mais visível e incômodo do crescimento: o canteiro de obras permanente. A Avenida Mário Gurgel, em Cariacica, teve um trecho interditado no sentido Viana justamente nesta quarta, por causa do avanço das obras do Trevo de Alto Lage. Na Beira-Mar de Vitória, uma ciclovia provisória instalada na Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes já causou retenção significativa na terça-feira. São obras necessárias — mobilidade urbana e infraestrutura viária não se fazem sem dor —, mas o acúmulo de frentes simultâneas testa a paciência de quem depende do trânsito da Grande Vitória todos os dias.
No Norte do estado, a BR-101 soma mais um capítulo dessa equação. Entre Ibiraçu e Fundão, a rodovia terá bloqueios totais nesta quarta e na quinta-feira para operações de transporte e içamento de vigas — provavelmente ligadas a obras de duplicação ou viadutos na região. É mais um sinal de que o Espírito Santo inteiro está em obra, do Sul ao Norte, com o trânsito pagando o preço a curto prazo em troca de ganhos estruturais a médio e longo prazo.
Essa movimentação de infraestrutura ocorre num momento político peculiar. O estado ainda digere o resultado das eleições de 4 de outubro, que renovou boa parte da Assembleia Legislativa: três dos dezesseis novos deputados eleitos nunca haviam vencido uma eleição antes. É um sinal de renovação política que chega junto com decisões de peso econômico como a da Eneva — decisões que, em grande medida, já estavam em curso antes da posse dos novos parlamentares em 2027, mas que vão exigir acompanhamento de perto do legislativo que assume o ano que vem.
No meio desse cenário de grandes números, o cotidiano capixaba segue com suas pequenas urgências e alegrias. O IEL-ES abriu 56 vagas de estágio, emprego e bolsas na Grande Vitória — uma porta de entrada ao mercado de trabalho que ganha peso justamente quando o estado promete empregos futuros em obras bilionárias no Sul. E o calor acima da média, com alerta de tempestade do Inmet para 34 municípios, lembra que a natureza também impõe seu próprio cronograma, independente de contratos e licitações.
O que observar daqui para frente: se o investimento da Eneva em Presidente Kennedy vai, de fato, se traduzir em empregos locais e arrecadação visível para o Sul do estado, ou se ficará concentrado em grandes empreiteiras de fora. E se as obras na Grande Vitória — Mário Gurgel, ciclovia da Beira-Mar, BR-101 — vão entregar os ganhos de mobilidade prometidos antes que a paciência do capixaba se esgote de vez.


![Vista aérea de rodovia entre montanhas verdes no Espírito Santo, com obras de duplicação ao lado da pista.]](https://fmsacbbhjoxkhclchzgu.supabase.co/storage/v1/object/public/artigos/autoral/2026-09-03.jpg)
