O Espírito Santo amanhece nesta segunda-feira, 5 de outubro, diante de um recado claro das urnas: a disputa pelo Palácio Anchieta não acabou. Com 100% dos votos apurados no domingo, Lorenzo Pazolini (Republicanos) e o atual governador Ricardo Ferraço (MDB) avançam para o segundo turno, confirmando que o eleitorado capixaba preferiu fatiar a decisão em vez de resolvê-la de uma vez.
Esse resultado não é só sobre dois nomes disputando uma cadeira. É sobre um Estado que, historicamente, costuma definir o governo já na primeira rodada — e que desta vez escolheu prolongar o debate. A leitura mais honesta é que nenhum dos dois conseguiu construir maioria suficiente para evitar a prorrogação, o que também diz algo sobre a fragmentação do voto nas outras candidaturas que ficaram pelo caminho.
Enquanto isso, a eleição para a Câmara dos Deputados trouxe o dado mais espantoso do pleito: Lucas Polese (PL) se tornou o deputado federal mais votado da história do Espírito Santo, com 417.218 votos. O número mais que dobra a marca anterior, que pertencia a Amaro Neto desde 2018. Não é exagero dizer que esse resultado reconfigura o tabuleiro de poder capixaba para os próximos quatro anos, com reflexos diretos na bancada que vai representar o Estado em Brasília.
A engenharia da votação em si também merece registro. O domingo começou sob alerta amarelo do Inmet para tempestades, válido das 0h01 às 23h59 e abrangendo 32 municípios — uma condição que, somada ao fluxo normal de eleitores, resultou em filas longas em vários pontos do Estado. Em Cachoeiro de Itapemirim, mais de 40 senhas foram distribuídas para quem chegou no limite do horário. Em Vitória, a manhã teve filas expressivas, mas a tarde fluiu sem tumulto até o fechamento das urnas às 17h, com direito a atendimento estendido para quem já estava na fila.
Esse contraste entre manhã tensa e tarde tranquila na capital é um indicador prático: a logística eleitoral capixaba resistiu à pressão do clima e do volume de eleitores sem grandes falhas, mas também mostrou que o sistema opera no limite em dias de chuva forte. É um aprendizado que a Justiça Eleitoral e as prefeituras devem levar para o segundo turno, já que o cenário de instabilidade climática em outubro tende a se repetir.
Do ponto de vista político, o que o Espírito Santo aprendeu neste domingo é que o eleitor não age em bloco único. Pazolini e Ferraço disputam eleitorados que se sobrepõem em parte, mas que também competem por espaços distintos — o que explica por que nenhum dos dois decidiu a eleição de cara. A força de Polese, por outro lado, sinaliza que a onda conservadora ligada ao PL segue com fôlego relevante no Estado, um fator que qualquer um dos dois candidatos ao governo precisará considerar ao buscar apoios para o segundo turno.
Nos próximos dias, a atenção se volta para os movimentos de bastidor: quais lideranças derrotadas no primeiro turno vão declarar apoio a Pazolini ou a Ferraço, e como os votos de Polese — e de outros parlamentares eleitos — vão se posicionar nesse tabuleiro. A fotografia de domingo já está tirada; o que falta é entender qual quadro ela vai formar até o fim de outubro.



