Em setembro de 2025, o grupo português Mota-Engil Latam venceu a concessão do primeiro túnel imerso do Brasil, superando a espanhola Acciona. O contrato prevê investimentos de aproximadamente R$ 6,8 bilhões, com estruturação financeira do BNDES e aportes compartilhados entre a União e o Governo de São Paulo. O resultado do leilão mostrou viabilidade técnica, segurança jurídica e interesse da iniciativa privada em projetos desse tipo.

No Espírito Santo, uma solução semelhante chegou a ser discutida há quase duas décadas, mas o tema saiu da pauta pública. Nesse período, a Terceira Ponte passou a operar próxima do limite de capacidade, e qualquer acidente compromete a circulação entre Vitória e Vila Velha, afetando o tempo de deslocamento de trabalhadores e a logística metropolitana.

A Região Metropolitana da Grande Vitória ainda não conta com uma autoridade única de trânsito capaz de coordenar respostas integradas entre os municípios, diferente do que ocorre no transporte coletivo, gerido pela Ceturb-ES por meio do Sistema Transcol. Enquanto isso, Vila Velha se consolidou como o maior polo imobiliário do Estado, respondendo por cerca de metade dos lançamentos residenciais da Grande Vitória há mais de 15 anos, segundo o Censo Imobiliário do Sinduscon-ES.

A comparação entre os dois projetos ajuda a dimensionar a escala da obra capixaba. O túnel de Santos-Guarujá terá 1,5 quilômetro de extensão, sendo 870 metros sob o canal de navegação, atendendo um eixo urbano de cerca de 700 mil habitantes. Uma ligação entre a região da Ilha de Santa Maria e a Estrada de Capuaba teria cerca de 2 quilômetros, incluindo rampas e acessos, servindo diretamente um eixo com mais de 800 mil habitantes.

Sob a ótica da engenharia, um túnel oferece vantagens sobre uma nova ponte. Para preservar o gabarito de navegação do Porto de Vitória, uma ponte precisaria ter cerca de 70 metros de altura, como a Terceira Ponte, com extensos viadutos de acesso. Já um túnel imerso ficaria instalado em uma trincheira escavada no leito do canal, a cerca de 20 metros abaixo do nível da água, reduzindo a extensão das rampas e os impactos urbanísticos.

O projeto ainda depende de estudos geológicos, ambientais, econômicos e de demanda, considerando a presença de maciços rochosos próximos ao Penedo e a outros afloramentos. Segundo a análise, o Espírito Santo reúne hoje equilíbrio fiscal e capacidade institucional para estruturar um empreendimento desse porte por meio de uma PPP, faltando decisão política para recolocar o tema na agenda estadual.