O Espírito Santo de hoje, 15 de outubro de 2026, vive um contraste que diz muito sobre como o eleitorado capixaba pensa a política e como o estado segue funcionando independentemente dela. De um lado, a disputa pelo governo entra na reta final com números que ainda deixam a corrida aberta. De outro, municípios inteiros lidam com problemas concretos — chuva de granizo, obras de mobilidade, saneamento básico — que não têm partido e não esperam o resultado das urnas.
A primeira pesquisa Quaest sobre o segundo turno do governo do Espírito Santo mostra Lorenzo Pazolini (Republicanos) com 47% das intenções de voto estimuladas, contra 38% de Ricardo Ferraço. A diferença é relevante, mas não definitiva: dez pontos percentuais, numa eleição de dois turnos, ainda deixam espaço para movimento, principalmente quando se olha para o comportamento do eleitor capixaba no primeiro turno. O fenômeno batizado de 'RicarNaro e PazoLula' — municípios como São Mateus e Boa Esperança votando em Lula para presidente e em candidatos de outro campo para governador — mostra que a lógica das alianças partidárias formais não captura inteiramente a cabeça de quem vota no Espírito Santo. Isso é um dado importante para interpretar qualquer pesquisa até o dia da votação.
Enquanto a política nacional e estadual disputa manchete, a vida prática das cidades segue em movimento paralelo. Em Vitória, a Prefeitura suspendeu desde quarta-feira (14) o estacionamento em toda a Avenida Princesa Isabel, no Centro, por causa das obras da Beira-Mar. É o tipo de decisão que afeta diretamente o comerciante e o trabalhador que circula na região, mas que raramente entra no debate eleitoral com o peso que merece — afinal, mobilidade urbana é também política pública, só que sem palanque.
Cachoeiro de Itapemirim, por sua vez, reforça uma posição que já é histórica no estado: referência em saneamento básico. Com 100% da população urbana atendida por água tratada e 98% do esgoto coletado e tratado, segundo a concessionária BRK, o município mostra que investimento contínuo em infraestrutura básica produz resultado mensurável — e isso vale tanto para quem governa quanto para quem fiscaliza.
O interior também lembrou, de forma dura, que o Espírito Santo é maior do que a disputa pelo Palácio Anchieta. Um temporal com granizo e ventos fortes atingiu a comunidade de São Pedro, na zona rural de Águia Branca, no Noroeste capixaba, na tarde de quarta-feira (14), danificando uma escola estadual e plantações. Episódios como esse reacendem uma pauta que qualquer governo eleito em novembro vai precisar enfrentar: a vulnerabilidade climática do interior e a resposta do poder público a eventos extremos cada vez mais frequentes.
Do lado positivo, a economia do interior mostrou fôlego. A 1ª edição do Oktober Fest Cachoeiro, realizada entre 9 e 12 de outubro na Estação Ferroviária do Centro, reuniu mais de 20 mil visitantes e movimentou R$ 3 milhões, segundo balanço da organização. É um exemplo de como eventos culturais bem planejados geram impacto econômico direto e podem se tornar política pública de turismo — algo que o Espírito Santo precisa reforçar, especialmente depois de perder o Selo Bandeira Azul desde 2023, certificação internacional de qualidade ambiental nas praias que o estado não recupera há três anos, mesmo com o Brasil batendo recorde de procura turística em 2026.
O fio condutor de tudo isso é simples: o Espírito Santo não para por causa da eleição, mas a eleição vai decidir quem vai lidar com esses problemas a partir de 2027. Seja a reconstrução de uma escola em Águia Branca, a manutenção do padrão de saneamento de Cachoeiro, a conclusão das obras na orla de Vitória ou a recuperação de selos ambientais perdidos, são pautas que não cabem em dez segundos de propaganda eleitoral, mas que vão definir se o próximo governo entrega resultado ou só discurso.
Nos próximos dias, vale observar três movimentos: se a vantagem de Pazolini na Quaest se mantém ou se reduz conforme o eleitorado capixaba repete o padrão de voto dividido já visto no primeiro turno; como a Prefeitura de Vitória vai comunicar o andamento das obras da Beira-Mar para minimizar o impacto no comércio local; e se o governo estadual atual ou o eleito vai apresentar algum plano concreto para o enfrentamento de eventos climáticos extremos no interior, depois do episódio de Águia Branca.



