Há dias em que o noticiário capixaba parece disperso, mas hoje ele conta uma história só: a de um estado que segue produzindo, se movendo e se reorganizando ao mesmo tempo em que a cúpula política troca de mãos. A tese é simples — a transição de governo em Vitória não paralisa o Espírito Santo, ela apenas corre em paralelo a um estado que continua girando.

O símbolo mais claro dessa transição veio nesta quarta-feira (28): Regis Mattos Teixeira, até então secretário de Fazenda de Vitória, foi anunciado na equipe de transição do governador eleito Lorenzo Pazolini. É um movimento técnico, mas também político — mostra que Pazolini está buscando quadros que já conhecem a máquina pública capixaba, numa aposta em continuidade de gestão fiscal mais do que em ruptura.

Enquanto isso, a economia real do Espírito Santo deu seu próprio recado. O Anuário IEL 200 Maiores Empresas do Espírito Santo 2026, divulgado na noite de quarta, confirmou a Comexport no topo do ranking estadual pelo segundo ano seguido, com receita operacional líquida de R$ 36,5 bilhões. É um número que existe independente de quem governa o Palácio Anchieta — e que lembra que boa parte da força econômica capixaba está em setores como comércio exterior e logística, pouco afetados pelo calendário político.

Na ponta da infraestrutura urbana, Pazolini já sinaliza prioridades para depois da posse: em entrevista ao Bom Dia ES, prometeu trabalhar com as prefeituras da Grande Vitória para ampliar e conectar as ciclovias da região metropolitana. É uma pauta de mobilidade que depende de articulação entre municípios — um teste real de quanto a nova gestão estadual vai conseguir costurar com prefeitos que têm agendas próprias.

Essa necessidade de articulação entre estado e municípios já aparece em outra frente, mais urgente: o Fundo Cidades está repassando recursos diretamente a seis municípios capixabas para obras de contenção de encostas, drenagem e pavimentação, de olho em reduzir riscos antes do período mais chuvoso do ano. É um tipo de investimento que não aparece em ranking nenhum, mas que evita tragédias — e que qualquer governo, seja qual for a cor, não pode se dar ao luxo de atrasar.

No interior, uma notícia carrega um significado que vai além da pauta ambiental: o governo federal publicou portaria liberando a pesca na área marinha próxima à foz do Rio Doce, entre Aracruz e Linhares, depois de dez anos de proibição imposta após o rompimento da barragem de Fundão, em 2015. Para famílias de pescadores dessas duas cidades, é o fim de uma década de espera por uma atividade que era fonte de renda e de identidade cultural.

No campo mais simbólico, o calendário também se mexe: o ponto facultativo do Dia do Servidor Público foi transferido para esta sexta-feira (30), criando um feriadão até segunda-feira para servidores estaduais e municipais da Grande Vitória. E já está marcada a entrega do Prêmio Band Cidades Excelentes 2026, no dia 10 de novembro, no Cecates, em Vitória — uma vitrine para municípios capixabas que vêm se destacando em gestão.

O que fica do dia é um Espírito Santo em duas velocidades: uma política, mais lenta e protocolar, organizando a passagem de bastão para Pazolini; outra prática, mais rápida, feita de números de empresas, obras contra chuva e pescadores voltando ao mar. Vale observar nas próximas semanas se a nova equipe de governo consegue transformar essas peças soltas — ciclovias, Fundo Cidades, articulação municipal — em uma agenda coerente, ou se elas vão continuar andando cada uma por conta própria.