O Espírito Santo virou a página política no mesmo fim de semana em que o céu já avisava que outubro não terminaria em paz. Lorenzo Pazolini (Republicanos) venceu o segundo turno das eleições estaduais realizado neste domingo, 25 de outubro, puxando votação expressiva em municípios como São Mateus, onde recebeu 27.351 votos, 41,55% do total da cidade. É um resultado que confirma força do candidato fora da Grande Vitória, num Estado em que o interior frequentemente decide eleições que a capital só acompanha.
A logística da votação também mereceu capítulo à parte. O Supremo Tribunal Federal determinou a prorrogação do horário de votação em todo o país, e no Espírito Santo isso significou famílias inteiras — filhos, pais, avós — organizando a ida às urnas com mais tempo disponível. Em Cachoeiro de Itapemirim, a Prefeitura foi além e liberou transporte coletivo gratuito em todas as linhas, da primeira à última viagem programada, um gesto simples que reduz barreira de acesso ao voto e deveria virar rotina em pleitos futuros, não exceção pontual.
Enquanto a política capixaba trocava de comando, a natureza já dava as cartas para a próxima semana. O Estado amanheceu nesta segunda-feira, 26, sob aviso de nível laranja para chuva forte e ventos que podem chegar a 100 km/h, quadro que deve se estender até terça-feira. É o tipo de evento que testa, em tempo real, a capacidade de resposta de prefeituras e da Defesa Civil — justamente no momento em que o novo governo eleito ainda nem tomou posse e as estruturas atuais seguem no comando.
Essa sobreposição de calendários — eleição decidida, temporal em curso — escancara um contraste que o capixaba conhece bem: a política resolve no domingo, mas a gestão cotidiana segue travada em obstáculos técnicos que não têm pressa nenhuma de se resolver. É o caso do estacionamento rotativo de Vitória. Os parquímetros estão suspensos desde 29 de agosto, e a Prefeitura ainda aguarda análise do Tribunal de Contas do Espírito Santo para assinar novo termo. Dois meses depois, sem previsão de retorno ainda em 2026, a cidade segue sem a receita e sem o controle de vagas que o sistema deveria garantir.
O caso do parquímetro é pequeno em escala, mas grande em simbolismo: mostra como decisões administrativas podem ficar paralisadas por análises burocráticas enquanto o cotidiano da cidade segue pressionado por outras urgências — like a chuva que já bate à porta. Para o motorista que circula pelo centro ou pela Praia do Canto, o problema é concreto: vagas sem rotatividade, fiscalização inexistente, e nenhuma data clara de solução.
Nem tudo, porém, é pauta de crise. O Espírito Santo também mantém viva sua agenda cultural, que segue seu calendário independentemente de eleição ou temporal. O Festival de Música Erudita do ES chega à 14ª edição entre 6 e 28 de novembro, sob direção de Tarcísio Santório e Livia Sabag, com destaque para a estreia da ópera Helena, de João Gomes de Araújo. É um lembrete de que a vida capixaba não se resume ao noticiário político ou às emergências climáticas — há produção artística de peso acontecendo em paralelo, e ela merece tanta atenção quanto o resultado das urnas.
O que fica deste domingo e desta segunda-feira é uma espécie de teste de transição. Pazolini herda um Estado que decidiu seu rumo político nas urnas, mas que carrega pendências de gestão que não esperam posse de governo para cobrar solução — da mobilidade urbana de Vitória à resposta a temporais que já é urgência desta semana. A expectativa agora é dupla: observar como a Defesa Civil e as prefeituras lidam com o alerta laranja nas próximas 48 horas, e acompanhar se o TCE-ES finalmente libera o novo termo do estacionamento rotativo antes que o ano termine sem solução nenhuma.


