Há dias em que as notícias do Espírito Santo, lidas em conjunto, contam uma história maior do que a soma das partes. Nesta terça-feira, 25 de agosto, esse é um desses dias. De um lado, a rotina da Grande Vitória segue com seus percalços de sempre: chuva rápida prevista pelo Incaper para hoje, um acidente sem feridos na Avenida Dante Michelini na manhã de segunda. De outro, em municípios menores e em laboratórios de inovação, o estado testa apostas que podem valer décadas.
O exemplo mais simbólico vem de Linhares, no norte capixaba, onde uma fazenda de café virou palco do primeiro teste do Brasil usando gás natural para secar grãos. O projeto piloto, de R$ 1 milhão, quer saber se o combustível pode substituir a lenha ou outras fontes tradicionais nesse processo — decisão que, se comprovada viável, mexe diretamente com o custo de produção de um dos produtos mais identificados com a economia capixaba. Não é exagero dizer que o Espírito Santo, terra do café conilon e arábica, está testando o futuro da sua própria xícara.
Na mesma toada de aposta em cadeias produtivas emergentes, um levantamento da Amcham Brasil, com apoio de especialistas da Ufes e da FGV, projeta que o estado pode gerar cerca de 25 mil empregos até 2050 na cadeia de minerais críticos e terras raras. É um horizonte de 24 anos, longo demais para virar manchete de impacto imediato, mas suficiente para justificar que o poder público e as universidades comecem a se mexer agora — formação técnica, infraestrutura logística, regras ambientais claras. O Espírito Santo já sabe lidar com mineração pesada, mas minerais críticos exigem outro tipo de cadeia, mais sofisticada e ligada à transição energética global.
Enquanto isso, em Laranja da Terra, no interior serrano, estudantes da E.E.E.F.M. Luiz Jouffroy embarcam para Joinville, em Santa Catarina, no dia 29 de agosto, para disputar a etapa brasileira da World Robot Olympiad, ao lado de 111 equipes de todo o país. É um detalhe pequeno diante dos grandes projetos econômicos, mas talvez seja o mais revelador: educação técnica e ciência aplicada não são privilégio da capital. Um município pequeno, de economia predominantemente rural, está competindo em pé de igualdade em robótica com escolas de centros urbanos muito maiores.
O esporte de base também deu seu recado neste fim de semana. O Porto Vitória, na Serra, conquistou o bicampeonato duplo nos Campeonatos Capixabas Sub-11 e Sub-13, batendo o Doze nas duas finais, disputadas na estreia de um novo Centro de Desenvolvimento do Futebol. Investir em categorias de base é apostar em resultado que só aparece daqui a uma década — o mesmo raciocínio de longo prazo que aparece nos minerais críticos e no teste com gás natural em Linhares.
Do lado social, a Igreja Cristã Maranata realizou, no Maanaim de Cariacica, uma ação que somou mais de 11 mil atendimentos entre consultas médicas e assistência à população, no último fim de semana. É um lembrete de que, por trás dos grandes projetos de desenvolvimento, existe uma demanda imediata e concreta por saúde básica e assistência que o poder público nem sempre consegue suprir sozinho.
E a Grande Vitória, nesse meio-tempo, segue sua rotina mais terrena. A frente fria que trouxe chuva no fim de semana começou a se afastar já na segunda-feira, 24, e a previsão do Incaper aponta chuva rápida ainda nesta terça, com melhora gradual até sexta-feira, 28, quando nenhuma região do estado deve ter chuva. No trânsito, um acidente entre dois carros na Dante Michelini, em frente à Praia de Camburi, terminou com um veículo contra um poste — sem feridos, mas mais um sinal de que a infraestrutura viária da capital ainda cobra atenção diária.
O que fica do dia é um contraste que vale a pena observar nas próximas semanas: enquanto o cotidiano da Grande Vitória segue marcado por clima instável e questões de mobilidade urbana, é no interior e em projetos de médio e longo prazo — café, minerais, robótica escolar, futebol de base — que o Espírito Santo parece estar plantando suas apostas mais ambiciosas. Cabe ao poder público e às lideranças econômicas garantir que esse investimento no futuro não fique restrito a pilotos e levantamentos, mas se transforme em política de estado.
Vale acompanhar, nos próximos meses, se o teste do gás natural em Linhares avança para outras propriedades cafeeiras, se o estudo sobre minerais críticos vira algum tipo de plano de ação concreto do governo estadual, e como os estudantes de Laranja da Terra se saem na disputa nacional de robótica em Joinville. São três pontas de um mesmo fio: um Espírito Santo que testa, no presente, as bases do que quer ser nas próximas décadas.



