Há um Espírito Santo que aparece na manhã de sábado: bicicletas gratuitas circulando por Vitória, Vila Velha e Serra a partir de domingo, a Imersão Cultural tomando a Praia do Morro em Guarapari das 9h às 22h30, e quatro jogos do Capixabão Série B abrindo o returno da primeira fase em municípios do interior. É a vida cotidiana funcionando, os pequenos prazeres coletivos que fazem o Estado parecer, por algumas horas, mais leve.
Mas há outro Espírito Santo, o que não aparece nas fotos de evento: uma plataforma de investimentos com atuação capixaba enfrentando uma crise estimada em R$ 500 milhões, dos quais cerca de R$ 300 milhões foram captados diretamente com empresas do Estado. Não se trata de um problema abstrato de mercado financeiro nacional — é dinheiro que saiu do caixa de negócios capixabas, muitos deles pequenos e médios, atraídos por promessas de retorno que hoje parecem não ter sustentação.
O contraste entre as duas cenas não é acidental. Ele mostra um Espírito Santo que investe pesado em qualidade de vida urbana e cultura — a bike gratuita da Setran, a programação de Guarapari, o futebol de base regional — mas que ainda tem lacunas grandes na fiscalização de quem promete rentabilidade fácil para empresários que buscam guardar caixa. O rombo de R$ 500 milhões é sintoma de um problema estrutural: falta de educação financeira corporativa e, possivelmente, de supervisão mais rígida sobre plataformas que operam captando recursos localmente sem o mesmo escrutínio que bancos tradicionais enfrentam.
Enquanto isso, a política institucional segue seu curso mais organizado. Ricardo Ferraço definiu, na última terça-feira, os coordenadores de seu plano de governo — o prefeito de Viana, Wanderson Bueno, e uma subsecretária estadual de Orçamento à frente dos eixos temáticos. É um movimento de organização, de método, que contrasta justamente com a desorganização revelada no caso da plataforma de investimentos. Se o poder público capixaba quer ser visto como gestor sério, precisará também demonstrar capacidade de resposta rápida diante de casos como esse, que atingem diretamente a confiança do empresariado local.
Outro fio que atravessa o dia é a segurança e a responsabilização. A condenação de Adriana Felisberto Pereira a 28 anos e dez meses de prisão pelo Tribunal do Júri de Vitória, pela morte da ciclista Luísa, chega justamente na mesma semana em que a cidade promove pedalada gratuita para incentivar o uso da bicicleta. A Justiça capixaba mandou um recado duro sobre a gravidade de atropelamentos fatais, mas o caso também expõe a fragilidade de quem opta pela bike como meio de transporte em vias que ainda não são plenamente seguras para esse modal.
No plano nacional, a decisão do TSE proibindo adesivos de propaganda eleitoral em carros de aplicativo chega em um ano de pré-campanha aquecida, e deve repercutir também no Espírito Santo, onde motoristas de app costumam usar o veículo como espaço de renda extra e, às vezes, de exposição política. É um ajuste de regras que os capixabas que trabalham com transporte por aplicativo vão sentir rapidamente, sobretudo em cidades como Vitória e Vila Velha, onde a frota de aplicativos é maior.
Por fim, o levantamento sobre o custo de recarga de carros elétricos — R$ 25 a R$ 26 em casa contra mais de R$ 70 em eletropostos — é um dado que interessa direto ao bolso do capixaba que já migrou ou pensa em migrar para a eletrificação. A diferença de preço reforça que, sem infraestrutura de recarga doméstica acessível, o carro elétrico continua sendo um produto de nicho, distante da realidade de quem depende de recarga pública no Espírito Santo.
O que fica deste sábado é um retrato de um Estado em dois tempos: o tempo da vida cotidiana, que segue com eventos, esporte e mobilidade, e o tempo estrutural, que ainda cobra respostas sobre proteção financeira, segurança viária e regras claras para setores em transformação, como transporte por aplicativo e mobilidade elétrica. Vale observar nos próximos dias como o governo estadual e os órgãos de fiscalização vão se posicionar sobre o rombo da plataforma de investimentos — esse será o verdadeiro teste de gestão da semana.



