Há uma imagem que resume o Espírito Santo de julho de 2026: de um lado, o governo estadual comemora a transferência da Segunda Ponte da União para o Estado, anunciando a futura quinta faixa como se fosse a virada de página da mobilidade metropolitana. Do outro, Cariacica — cidade historicamente tratada como periferia logística da Grande Vitória — aparece no ranking nacional como a 5ª maior importadora do país, com R$ 29,61 bilhões movimentados só no primeiro semestre. A obra ainda é promessa; o resultado econômico já é fato.
A gestão da Segunda Ponte, que passou da União para o Governo do Espírito Santo nesta sexta-feira, 31 de julho, é o tipo de mudança que parece burocrática mas não é. Ela destrava, ao menos no papel, a construção da quinta faixa de rolamento — uma demanda antiga de quem enfrenta o gargalo diário entre Vitória e Vila Velha. O problema é que o cronograma de obras previsto ainda depende de execução, e o capixaba já aprendeu, com décadas de promessas de mobilidade na Grande Vitória, que assumir a gestão é o primeiro passo de uma corrida longa.
Enquanto isso, Cariacica não esperou ponte nenhuma para crescer. Os R$ 29,61 bilhões em importações no semestre, divulgados pelo Comex Stat e pelo Sindiex, colocam o município como a 3ª economia do Espírito Santo e o 5º maior importador do Brasil. É um dado que devolve a Cariacica um protagonismo que raramente aparece nas manchetes políticas — geralmente reservadas à capital e a Vila Velha, que nesta semana lançou sua chapa de 23 candidatos a deputado estadual pela federação PSDB-Cidadania.
A Grande Vitória também segue às voltas com obras que incomodam o cotidiano antes de entregar benefício. Em Vila Velha, três cruzamentos da Avenida Carlos Lindenberg foram fechados nesta quinta-feira para avançar o Expresso GV, projeto que promete transporte mais rápido mas que, por ora, produz apenas trânsito e desvio. É o retrato de uma metrópole em obras permanentes, sempre prometendo o futuro e cobrando o presente de quem trabalha e se desloca todos os dias.
Do lado da saúde, há um dado que merece mais atenção do que recebe: o número de partos assistidos por enfermeiros obstétricos no Espírito Santo saltou de 133 em 2022 para 562 em 2024, crescimento de mais de 320% em dois anos. O Coren-ES já contabiliza 205 profissionais especializados no estado. É uma mudança silenciosa, mas estrutural, na forma como o parto é conduzido — mesmo sem que a presença desses profissionais seja obrigatória em todas as maternidades do país, incluindo as capixabas.
O interior, como sempre, segue fazendo sua parte fora dos grandes debates de Vitória. Linhares virou notícia nacional com uma aposta que acertou a Lotofácil e faturou R$ 1.290.821,15 — um prêmio que, além da sorte individual, reforça a imagem de um Norte do Estado que também tem seu momento de destaque, ainda que por acaso. No plano institucional, o Estado ampliou para 721 o número de atividades econômicas dispensadas de alvará, com o Decreto 6483-R, sinal de que a desburocratização segue como pauta de fundo, mesmo sem holofote.
O que este conjunto de notícias revela é um Espírito Santo de dois ritmos. Na Grande Vitória, o debate público gira em torno de obras, prazos e disputas eleitorais que começam a se desenhar. No interior e em municípios como Cariacica, a economia e a vida cotidiana avançam com menos anúncio e mais consequência prática. Cabe ao capixaba comum perguntar: quando a quinta faixa da Segunda Ponte sair do papel, o resto do estado ainda estará esperando, ou já terá seguido adiante, como tem feito até aqui?



